Acorda pro futuro, Brasil!

Povo Brasileiro no foge  luta

Por Beia Carvalho*

Levanta a mão aí quem acha bacana viver num país onde 27% dos adultos são analfabetos funcionais. São pessoas que conhecem letras e números, mas não conseguem fazer contas e, quando leem um texto, não sabem dizer do que se trata. Do Oiapoque ao Chuí e para além do Tratado de Tordesilhas: não enxergo nenhum brasileiro com a mão para cima.

Quem acha que o professor do ensino fundamental deve ganhar 10 vezes menos em relação ao mestre suíço, ou 4 vezes menos, comparado a um dinamarquês, coreano, espanhol ou canadense? Nenhuma mão levantada.

Quem quer viver num país que bate recordes a cada ano em mortes violentas – mata uma guerra da Síria por ano – com 58 mil no ano passado? O Brasil declarou guerra contra seus habitantes?

Quem acha normal 40 motoqueiros morrerem por dia? Quem quer ter filhos num país no qual é possível ter um em cada 10 brasileiros atrás das grades em 2075, se a taxa de prisões continuar no mesmo ritmo? Mãos pra cima? Nenhuma.

Quem curte não poder atender ao celular na rua por medo de ser roubado? Nem trabalhar em seu computador em lugar público, como nos países de primeiro mundo? E não poder caminhar à noite por qualquer local de sua cidade? Mãos?

Quem acha produtivo para o Brasil 33% de nossas crianças sofrerem de obesidade e ocupar o 5º lugar no ranking de países mais obesos? Ou que iremos bater recordes pelo aumento do consumo de drogas, enquanto o índice cai no mundo?

Quem acha uma prova de excelência o atual governo insistir até o último momento que a Lava Jato tratava-se de intriga da oposição? Quem acha correto que os acusados nessa operação tenham desviado 21 bilhões de reais – segundo estimativa do banco americano Morgan Stanley? Olho para todos os recantos do brasilzão e não vejo mãos levantadas.

Quem acha tranquilo dar um extra para o guarda de trânsito? Pedir para colocar o nome no trabalho de grupo que você não fez? Marcar presença na aula que não foi? Mentir a idade de seu filho na frente dele próprio? Apropriar-se de um objeto esquecido que não é seu? Mentir no seu currículo? Colar na prova? Pegar a fila “rápida” com muitas compras? Avançar o sinal vermelho? Dirigir bêbado? Presentear seu filho de 16 anos com um carro? Pagar para alguém limpar os pontos de sua carteira de motorista? Furar filas e ensinar seus filhos essa “espantosa esperteza”? Comprar CD pirata?

Começo a enxergar mãos para cima. São muitas. Milhares. Centenas de milhares. Nossa, agora são muitos milhões. Não sei, não consigo mais contar. Somos centenas de milhões de brasileiros corrompendo, ensinando as novas gerações a corromper e, ainda, querendo ganhar medalha de bom cidadão ou coitadinho.

O Brasil é o país dos brasileiros. E, como diz o ditado: cada um tem o país que merece. Nós merecemos cada pedacinho dele. Cada conta bilionária na Suíça, cada hospital, escola, biblioteca, parque e quilômetros da rede de água e esgoto e iluminação que não foram construídos com os nossos impostos. Cada professor mal formado, mal treinado, mal-informado e mal pago pelo sistema que criamos nos últimos 500 anos. Neste exato momento, nós e milhões de nós estamos cometendo delitos que nós mesmos consideramos uma coisa menor, uma escorregadinha sem maior importância. Desprezamos valores como se, de repente, eles tivessem saído de moda, fossem coisa do passado, obstáculos que não levam a nada, emperram a vida. Essa permissividade talvez fosse fruto de uma história na qual a abundância e a tolerância eram a regra. “Levar vantagem em tudo” era um mantra. Podíamos desperdiçar, podíamos “dar um jeitinho”, pois ainda teríamos uma “margem de manobra” para continuar nossas vidas. Nada se esgotava, mesmo sendo mal-usado.

Infelizmente, ou melhor, felizmente, isso é passado. Dar o exemplo e zelar por valores era coisa de uns poucos esquisitões. Não é mais!

Meu amigo Paulo Addair fala sobre isso de uma forma muito fácil. Diz que vivemos numa nova era de recursos cada vez mais escassos. Não podemos desperdiçar esses recursos para negociar; eles têm que ser usados para fazer, produzir, realizar melhor e mais rápido. E a corrupção, a ineficiência, o desperdício e o “jeitinho” são formas inaceitáveis de desperdício. E a intolerância com todo tipo de desvio de recursos nos levará a uma Nova era: a Era da Ética.

Valores sempre foram de suma importância para levar a humanidade adiante e isso só vai aumentar. E serão extremamente úteis, senão imprescindíveis, daqui para frente. Porque as questões que vão ser apresentadas já na próxima década exigirão de todos nós, cidadãos do mundo, solidez de caráter e valores inabaláveis. Estaremos nos deparando com questões da transumanidade. Será ético e aceitável que alguns indivíduos tenham sua inteligência, visão ou audição aumentadas artificialmente em detrimento dos outros, que talvez nem tenham o que comer? Quem vai escolher se será o meu ou o seu filho beneficiado com uma inteligência ímpar, enquanto alguns nem terão acesso a boas escolas? Com uma visão infravermelho, enquanto outros são cegados por resíduos tóxicos? Ou, como diz o futurista Jose Cordeiro, com la muerte de la muerte, enquanto outros morrem de inanição?

Tenho terminado todas as minhas palestras com uma frase. Hoje, acho que ela cabe mais do que nunca:

“Viva a Ética. Abaixo a Distopia. Vivam os Futuros Plurais.”

Artigo escrito com a colaboração de meu amigo e consultor de tecnologia Paulo Addair.

Notas:
1. Projeção da população brasileira em 18 de outubro de 2015: 205.000.000. http://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao

2. Analfabetismo funcional: http://g1.globo.com/profissao-reporter/noticia/2015/07/brasil-tem-13-milhoes-de-analfabetos.html

3. Apesar de ser proibido pela legislação brasileira, 27,1% dos estudantes do 9º ano, com 13 a 15 anos de idade, informaram ter dirigido um veículo motorizado nos 30 dias anteriores, e 19,3% disseram ter andado de motocicleta sem usar capacete. Essas são algumas das informações captadas pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2012, que entrevistou mais de cem mil adolescentes em 2.842 escolas de todo o país. http://portelaonline.com.br/site/noticia.php?id=16845

4. Professores do ensino fundamental são um dos mais mal pagos do mundo: http://www.estadao.com.br/noticias/geral,professor-do-ensino-fundamental-no-pais-e-um-dos-mais-mal-pagos-do-mundo-imp-,939874

5. Países com melhores sistemas de ensino podem inspirar soluções: http://revistaescola.abril.com.br/politicas-publicas/eles-podem-inspirar-busca-solucoes-423178.shtml

6. Brasil registra 58 mil mortes violentas em 2014, isto é, uma morte a cada 9 minutos em média no país: http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/10/brasil-registra-58-mil-mortes-violentas-em-2014-mostra-estudo.html

7. Em 4 anos de guerra sangrenta, foram mortas 250.000 pessoas na Síria. Mas lá, o povo prefere morrer no mar a virar estatística. http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/10/guerra-na-siria-ja-matou-mais-de-250-mil-pessoas-desde-2011-diz-ong.html

8. 40 motoqueiros morrem por dia no Brasil: http://noticias.band.uol.com.br/jornaldorio/video/2014/03/17/14960094/pesquisa-revela-que-40-motoqueiros-morrem-por-dia-no-brasil.html

9. Cai consumo de drogas no mundo: http://saude.terra.com.br/consumo-de-drogas-alcool-e-cigarro-cai-entre jovens,be7a92205ad67410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html

10. Aumenta consumo de drogas no Brasil: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2015/06/26/consumo-de-cocaina-no-brasil-e-4-vezes-superior-a-media-mundial.htm

11. Livro de Clóvis de Barros Filho Somos todos canalhas, professor de ética da USP. Assista ao vídeo: https://youtu.be/_cgcfhJLIY4

*Palestrante futurista
beia@5now.com.br

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