Arquivo do autor:Beia Carvalho

“Olha ali! Aonde? Ali! Um casal de homem e mulher com 2 filhos!!!”

Beia

Por Beia Carvalho*

Digo nas minhas palestras que em 2030, famílias compostas de 1 homem e 1 mulher e 2 filhos serão ultrapassadas por todo tipo de família: casal (hetero, homo, transexuais) com 1 ou 2, ou sem filhos; famílias com 1 adulto (hetero, homo, trans) com 1 ou 2, ou sem filhos.

São as Novas Famílias, vistas – ao mesmo tempo – como desequilíbrio da sustentabilidade, por pressionarem por mais infraestrutura e serviços; e como propulsoras do consumo, fazendo a roda da economia girar, mesmo em tempos de decadência de natalidade.

Leia mais neste artigo, que traduzi livremente do site da Bloomberg: http://www.bloomberg.com/news/articles/2016-06-22/family-shift-in-china-means-83-million-living-alone-chart

A Virada na Família Chinesa: 83 Milhões Vivendo Sozinhos.

Mais chineses estão vivendo sozinhos por conta do envelhecimento da população, do aumento dos divórcios e jovens mais ricos mudando da casa de seus pais. A Universidade de Cingapura estima que 83 milhões de pessoas estão morando sozinhas, liderados por jovens entre 15 e 34, de acordo com Jean Yeung, diretor do Centro de Pesquisa para Família e População, da universidade.

Lares com uma única pessoa, ou unipessoais, podem chegar a 132 milhões em 2050. A China tinha 66 milhões de lares unipessoais registrados em 2014, ou 15% dos domicílios, comparados com 6% em 1990, de acordo com dados governamentais.

Casal com 2 filhos vai perdendo sua normalidade para outros tipos de família. Domicílios Unipessoais: 83 milhões de chineses

Essas forças estão corroendo a estrutura econômica baseada em unidades familiares que remontam a centenas de anos. Aquelas que Mao Tsé-Tung tentou destruir durante a Revolução Cultural. Onde Mao fracassou, o crescimento econômico vem obtendo sucesso, acelerando a demanda por mais energia, bens de consumo e automóveis e pressão crescente sobre serviços para os mais velhos.

Nicholas Eberstadt, demógrafo do Instituto Americano Enterprise, em Washington: “Pode afetar principalmente a composição e, em algum grau, a qualidade do crescimento na China. Essa é uma parte da transição da China para uma economia impulsionada pelo consumo.”

Fonte Bloomberg:
Family Shift in China Means 83 Million Living Alone: Chart
http://www.bloomberg.com/news/articles/2016-06-22/family-shift-in-china-means-83-million-living-alone-chart
The Lonely Aftermath of China’s One Child Policy
http://www.bloomberg.com/news/articles/2016-06-21/behind-china-s-one-child-policy-is-a-growing-army-living-alone

Beia Carvalho
*Palestrante futurista

beia@5now.com.br

“As ideias e opiniões expostas nos artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores e podem não refletir a opinião do CEOlab”.

O que é Futurar?

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Image via Wikimedia Commons – Author: United States Library of Congress

Por Beia Carvalho*

O que é Futurar?
Jogos Olímpicos 2016, Rio de Janeiro, daqui 29 dias.

Em 2013, o chefe da Agência de Marketing de Turismo da cidade de New York, Fred Dixon, anunciou que os 55 milhões de turistas que visitaram a cidade ainda não bastavam: “tem mais gente visitando, mas gastando menos”.

Neste mesmo ano, recebemos em todo o Brasil, cerca de 6 milhões de turistas. Ou seja, 10% do total de visitantes de uma única cidade foram para todas as nossas praias do Oiapoque ao Chuí, para os Carnavais da Bahia, Olinda, Rio de Janeiro, para o turismo da floresta amazônica, do Pantanal, Foz do Iguaçu, Chapadas, Cânions, Brasília. Também estão incluídos nos míseros 10% todas as viagens para São Paulo e todos os outros destinos de negócios do Brasil.

Se compararmos a Big Apple com a Cidade Maravilhosa (o destino brasileiro que mais recebe turistas), essa desigualdade é mais acachapante: 55.000.000 milhões contra míseros 1.800.000 turistas que visitaram o Rio de Janeiro (3,5%).

2013 é o 4º ano seguido que a cidade de New York bate recordes em número de visitantes. Lá não teve Copa, nem vai ter Olimpíada. Mas teve um dos ataques terroristas mais espetaculares e mortais que conhecemos, afastando turistas de toda o planeta e mergulhando a cidade e o mundo em profundo estado de choque.

Futurar para Sair das Trevas

Em 2006, 5 anos depois do ataque às Torres Gêmeas, o prefeito Bloomberg definiu a ousada meta de 50 milhões de visitantes anuais para dali 10 anos, 2015. Um aumento de 15%, ou o equivalente a 6 milhões a mais de turistas.

Olha só que ironia, a meta deles era aumentar um Brasil inteiro de turistas só numa cidade! Audacioso? O resultado foi alcançado 4 anos antes! O que fez então o prefeito? Não só aumentou a meta para 55 milhões de visitantes como apostou num aumento espetacular do impacto do turismo na economia: chegar em $70 bilhões anuais, em 2015.

O boom do turismo e os impostos que advém da atividade, foi um dos maiores sucessos da administração do então prefeito Michael Bloomberg, que estabeleceu metas audaciosas uma após as outras.

A NYC & Company – Agência de Marketing de Turismo da cidade de New York – estima que cada dólar que o visitante gasta, se traduz em aproximadamente US $1,50 em atividade econômica, na repetida troca de mãos do dinheiro de um comerciante a outro, num vai e vem sem parar.

Os nativos de New Yorker estão sempre reclamando das calçadas entupidas e restaurantes monopolizados por turistas, mas Dixon, um imigrante, afirma que a cidade vai se beneficiar de mais e mais turistas. O setor de Lazer e Hospitalidade da economia, liderado pelos restaurantes e bares, empregou mais e com mais velocidade que qualquer outro setor desde a recessão, segundo as estatísticas do Ministério do Trabalho americano.

“Nossa cidade não seria tão robusta e vibrante se não fosse pelos milhões que nossos visitantes gastam” disse Fred Dixon, chefe da Agência de Marketing de Turismo da cidade de New York.

E todo esse dinheiro está se distanciando cada vez mais dos centros turísticos como a Times Square. Os turistas estão “explorando cada cantinho da cidade”. O efeito cascata fica claro. É só ver a lista de hotéis que abriram nos últimos anos em lugares como Williamsburg, no Brooklyn, cidade de Long Island, no Queens e Pelham Bay, no Bronx. Em 2014, o número de quartos de New York superou a casa dos 100.000.

Apesar de toda a construção e da proliferação de serviços não regulamentados, como o Airbnb, os preços não só não caíram, como chegaram a subir cerca de 2%. A posição do atual prefeito Bill de Blasio sobre a oposição da hotelaria ao Airbnb, é que se o serviço é considerado legal e regulado pode ajudar a aumentar a demanda pelas “viagens de experiência”.

“As pessoas querem experimentar outros bairros e viver como os locais,” diz Dixon. É por isso que a Agência de Marketing de Turismo dedicou recursos substanciais para promover áreas distantes dos famosos holofotes da cidade, como Tompkinsville, em Staten Island ou Gowanus, no Brooklyn.

Esse esforço é um dos favoritos do prefeito de Blasio, que confessou: “Sabe, fico arrepiado quando vejo os ônibus turísticos indo para o Brooklyn!”.

E qual é a manchete em 2016?

Nada mais, nada menos que o 6º recorde seguido em número de turistas, em Nova York. Se você não se lembra do 5º parágrafo, o então prefeito Bloomberg futurou uma ousada meta de 55 milhões de turistas para dali 10 anos. Errou! Foram 58,3 milhões! Desses, 80% são de americanos. E quase 1 milhão são de brasileiros! Para comemorar o feito, o prefeito declarou: “New York é a mais segura e vibrante cidade das Américas!”.

Fred Dixon ainda está à frente da Agência de Marketing de Turismo da cidade de New York. Pra mim, isso diz muito sobre o sucesso de uma política de branding da cidade, que não está presa a partidos políticos, não é refém de politicagem e acima de tudo está nas mãos de competentes e não de eventuais politiqueiros de quinta categoria.

Os desafios do todo poderoso Dixon tem a ver com o empobrecimento dos brasileiros e com assegurar ao mundo que, apesar dos crescentes ataques terroristas às grandes cidades mundiais, New York é um lugar equipado e seguro.

O grande evento da Copa do Mundo, com o Brasil bombando em 2014, atraiu 600 mil turistas de 186 países, apenas 10% a mais que em 2013.

Estamos a 29 dias para o início dos Jogos Olímpicos. Quebrados. Desempregados. Mal ajambrados. Inadimplentes. Falta papel pra passaporte. Faltam tornozeleiras eletrônicas para corruptos. Não tivemos uma visão, nem meta, nem líder. Não futuramos.

Gugue “olimpíada 2016 visitantes”, ou “expectativa de turistas jogos olímpicos 2016”, você não vai acreditar! Selecionando apenas os meios mais críveis como Estadão, jornais esportivos ou o portal do governo, você encontrará números que variam de 350.000 turistas à manchete da Gazeta do Povo: “Rio vai receber 2,3 milhões de pessoas nos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos”.

Daqui 2 meses, a gente atualiza o post.

NOTAS:
1) Matéria original do The New York Times publicada em 7 de julho de 2014, “For Head of New York Tourism, 55 Million Visitors Isn’t Enough”, link aqui: http://nyti.ms/29ehhD5, por By PATRICK McGEEHAN RICHARD PERRY / THE NEW YORK TIMES

2) Matéria original da Folha de S.Paulo, “Número de turistas em Nova York bate recorde pelo 6º ano seguido”, publicada 22/02/2016. Link aqui: bit.ly/29lWLzg

3) Count down para as Olimpíadas: http://www.theolympicgamescountdown.com/br/index.html

4) Milhões de turistas que visitaram New York:
2011: 50,0 milhões
2013: 55,0 milhões
2015: 58,3 milhões

Beia Carvalho
*Palestrante futurista

beia@5now.com.br

 

 

 

Geenteeem, eu tô passaaaada!

Por Beia Carvalho*

Fazia tempo que a conversa de restaurante, da mesa ao lado, não me alucinava tanto!

Ouço, olho de soslaio, nem pisco! Estico o ouvido diante da improbabilidade de um ser humano falar como se fosse um livro. É inviável, mas é verdade: é uma conversa real entre 2 pessoas!

Uma é a cliente (coachee). Dela saíram as primeiras frases, que me esforço aqui para repetir. Achei que poderia lembrar aquela monótona e infindável sequência de “jogos do contente”. Ia assim, “quero me cercar de pessoas do amor e da amizade e construir uma Roda da Felicidade (!)”. Acho que se a verdadeira Poliana a ouvisse, a acharia too-much-Poliana!

A outra é a profissional, a Coach.

Quem me conhece, sabe da minha ojeriza a frases prontas, frases formais que impactam, mas pouco ou nada transmitem além de seus sons. Não comunicam. São palavras, soam como palavras, mas são vazias de envolvimento.

A tal Coach-de-Prateleira soa como um livro-falante. Mas que inveja! Linda, calma, tranquila, serena, plácida. E de sua linda boca saem dezenas, centenas de palavras, todas perfeitamente ordenadas, harmônicas, com sujeito, predicado, conjunções verbais e adverbiais, dois pontos, travessão, notas de rodapés e páginas numeradas. Tudo parecia estar saindo de alguma apostila-de-como-se-tornar-coach-em-15-minutos. Expressões faciais: zero! Mas linda, linda!

Deduzi que esse jantar era a primeira reunião delas ao vivo. A química foi perfeita! Ali mesmo fecharam o negócio e selaram as sessões de coach. E, dali para frente, elas viverão felizes em suas Rodas de Felicidades!

Deixando de lado a chacota, quero esclarecer 2 coisas. Primeiro, fiquei extremamente incomodada com o fechamento do negócio. Segundo, pra quem não me conhece, nada tenho contra o exercício de coaches, nem de mentores. Poucas pessoas têm tantos amigos que desempenham essas profissões, como eu. São tantos, que quando me pedem indicação, me dou ao luxo de discorrer sobre seus distintos estilos. Conheço até coach antroposófica!

Fico pensando se a tal cliente, ouvindo a tal coach em outro contexto, enxergaria a falcatrua, a barbaridade da situação. Se se revoltaria tanto quanto eu.

A analogia que me passa pela cabeça é a pessoa desesperada que sai à procura de igrejas milagrosas. Vai encaixar, não vai? A fragilidade é tamanha, que as vãs frases feitas dos bispos-falantes marcam um golaço, em poucos minutos. Nada bate uma verborragia comprovada.

Tem solução? Como um cliente pode fazer uma melhor escolha usando uma lente objetiva? Minha sugestão é terceirizar essa objetividade, essa sensibilidade, e cheguei a uma solução que acredito simples e bem prática: leve um amigo junto com você.

Ah, se ela tivesse me levado naquele almoço! Te digo, com essa coach-de-prateleira é que ela não fecharia suas sessões. Não mesmo!

Num mundo complexo como o que estamos vivendo, energizar a carreira e a empresa com coaches e mentores é um impulso fenomenal para as nossas vidas e trabalho.

Não tenha pressa. Fuce. Você merece o melhor profissional.

Beia Carvalho
*Palestrante futurista

beia@5now.com.br

Como os carros sem motorista vão redesenhar nossas cidades

Por Beia Carvalho*

Este artigo foi publicado em 25 fevereiro de 2016 no site Curbed (www.curbed.com), que trata de tudo sobre casas, design de interior e arquitetura, terrenos, reformas, casas minúsculas, pré-fabricadas e tecnologia para o lar. O texto foi escrito por Patrick Sisson e traduzido por mim, de forma livre.

Em apenas poucos anos, os carros autônomos saíram daquela remota visão futurística para uma quase certeza. Montadoras e empresas de tecnologia estão numa louca corrida para desenvolver carros que possam se auto navegar por nossas ruas e estradas. Google declarou recentemente que sua frota de carros autônomos percorre 4.800.00 quilômetros por dia. Claro que toda essa certeza vem junto com um monumental asterisco: adoção generalizada, barreiras tecnológicas, estruturas legais que precisam ser eliminadas e, claro, ainda não há nenhum carro-robô legalizado para andar nas ruas à venda para o público. Mas os massivos investimentos e o tamanho potencial do mercado (de US$ 42 bilhões, de acordo com o Boston Consulting Group) sinaliza que eles estão chegando, de um jeito ou de outro.

Isso significa absurdas mudanças no nosso deslocamento diário, mas também tem um imenso potencial de remodelar dramaticamente nossas cidades. O tamanho, o alcance e o impacto ambiental dos carros têm sido um enorme fator no planejamento e no desenvolvimento urbano do último século. Um mundo onde carros sem motoristas são predominantes, e veículos com propriedade compartilhada passam a ser a regra, oferece uma chance para repensar e reconsiderar o desenho de nosso ambiente urbano. Curbed entrevistou 5 designers expertos em centros urbanos e pediu a eles que especulassem como esse potencial futuro do transporte, chegando sob sua própria direção, poderia remodelar as cidades em que vivemos.

Adeus, estacionamentos (e carros estacionados)

Alain Kornhauser, professor na Universidade de Princeton: “O maior impacto será nos estacionamentos. Nós não iremos precisar deles, definitivamente, não nos lugares que eles estão hoje. Estacionamentos perto de onde as pessoas trabalham ou se divertem serão uma coisa do passado. Se eu for a um jogo de futebol, meu carro não precisa ficar comigo. Se eu estiver no escritório, ele não precisa estar ali. O shopping center que conhecemos hoje, com um mar de vagas de estacionamentos, está morto.”

Dr. Kara Kockelman, da Universidade do Texas em Austin: “Tudo vai depender realmente da quantidade de pessoas que vão abrir mão de ter a propriedade de um carro. Eu acho que a gente perderia 50% da demanda para estacionamentos. Se todos aderissem, nós poderíamos nos livrar de 7 em cada 8 carros nas ruas, portanto, precisaríamos de apenas 1/8 das vagas de hoje.”

Carlo Ratti, diretor no MIT Senseable City Laboratory: “Normalmente, nos EUA, um carro fica parado por assombrosos 95% do tempo. O compartilhamento de carros [no Brasil temos o ZAZCAR, Uber] já está reduzindo a necessidade por vagas de estacionamento: há uma estimativa de que cada carro compartilhado remove entre 10 a 30 carros privados das ruas. Os carros autônomos vão reforçar essa tendência e prometem ter um impacto dramático na vida urbana, porque irão diluir as diferenças entre os modos privados e públicos de transportes. ‘Seu’ carro poderia te dar uma carona para o trabalho, de manhã, e, depois, em vez de ficar ociosamente parado num estacionamento, daria uma carona a alguém da sua família ou qualquer outra pessoa da sua vizinhança, dos seus amigos das mídias sociais ou de sua cidade.”

Alain Kornhauser: “Se você está na avenida Michigan, em Chicago, é uma beleza. Mas a um quarteirão dali, só tem estacionamentos. Os quarteirões atrás da avenida Michigan são basicamente um grande estacionamento, para aqueles que vão até a avenida Michigan. Com carros autônomos, não haverá necessidade destes estacionamentos e, de repente, toda essa terra ressurgirá. Há tanta coisa para ser feita com todo esse espaço: nós precisamos de muita gente criativa para pensar e refletir sobre o que esse novo espaço significa.”

Garry Tierney, arquiteto de Projeto Sênior, Perkins + Will: “A característica proeminente aqui é que os carros autônomos, sem motoristas, levam em conta um modelo de propriedade compartilhada. Nós fizemos um estudo e uma apresentação para a SPUR (uma empresa de São Francisco, de pesquisa e planejamento urbano, sem fins lucrativos) e estudamos as eficiências que os carros autônomos trazem para as ruas, que pode ser algo em torno de 400% menos tráfego de veículos. Vamos ser conservadores e dizer que eles trariam 200% de aumento de eficiência. Se você aplicasse isso a toda a cidade de São Francisco e criasse uma dieta para as ruas que refletisse essa redução, você ganharia uma área equivalente a 1 e 1/4 do Golden Gate Park [ou 3 Parques do Ibirapuera]. E isso é muito espaço público.”

Carlo Ratti: “Do ponto de vista da arquitetura, a cidade do amanhã não diferiria fundamentalmente das cidades de hoje – tanto quanto a Roma antiga não difere muito das cidades que nos são familiares hoje. O que mudará, no entanto, será a experiência que teremos com a cidade – especialmente do ponto de vista das viagens.”
Garry Tierney: “Neste ambiente, você não precisa estacionar seu carro, ele estacionará por si mesmo, portanto, você pode pensar em recapturar o espaço das vagas da frente de um prédio até a frente do outro prédio. Sim, isso se transforma num espaço dominado pelo pedestre, onde os veículos terão um papel subsidiário. Nós veremos um crescimento massivo na quantidade de espaço cedida ao domínio público e um imenso aumento na largura das calçadas, faixas de bicicletas e espaço para qualquer outra forma alternativa de transporte.”

Viagem de Bonde em São Francisco – 1906, clique para assistir no Vimeo.

Garry Tierney: “Já citei este exemplo antes: há um vídeo feito em São Francisco, em 1906, uma semana antes do terremoto. Alguém colocou uma câmera na frente de um bonde, que ia pela Rua Market para o Ferry Building. Frequentemente, as pessoas olham este vídeo em termos de arquitetura, como era a cidade naqueles tempos. Mas quando eu olho para esse vídeo, ele me mostra como as pessoas interagiam com o domínio público, antes do advento do carro. O filme mostra pessoas trançando entre cavalos, carroças e bondes. Há poucos carros na rua, e mais parece a louca viagem do Mr Toad’s Wild Ride na Disney. A parte instrutiva aqui é ver as pessoas caminhando sem estarem condicionadas a andar na frente dos prédios. Elas simplesmente usam o espaço da forma que querem. Até mais ou menos 100 atrás, era como todo mundo experienciava a cidade. Só recentemente, fomos treinados a andar obedientemente ao longo de uma estreita calçada, esperando o homenzinho do semáforo mudar de vermelho para verde para que possamos atravessar. Isso nos permitirá voltar a usar o espaço entre os edifícios como um real e verdadeiro domínio público. Essa parte, que é uma verdadeira volta ao futuro, é realmente apaixonante para mim.”

Trânsito Público: Fortalecido ou Ameaçado?

Paul Lewis, vice-presidente de Políticas, Eno Center de Transportes: “Eu acho que vai ajudar o transporte público em muitas formas. Os pioneiros, ‘early adopters’, poderiam muito bem ser donos de uma frota, como uma agência de trânsito. Se a economia de ônibus autônomos der certo, eles reduziriam despesas e, com esse ganho, colocariam mais ônibus nas ruas. O sistema de transporte em áreas urbanas densas realmente não pode dar certo sem transporte público ou veículos que possam carregar dezenas ou centenas de veículos. Simplesmente, não há capacidade de vias para que cada um tenha um veículo.”

Alain Kornhauser: “Na simulação que fizemos em New Jersey, considerando a habilidade de ir para a Princeton Junction ou outra estação de trem sem se preocupar em estacionar seu carro, os veículos autônomos aumentam as viagens de trem num fator de 5. Ou seja, em vez dos trens passarem a cada 30 minutos, teriam que passar a cada 5 minutos.”

Dr. Kara Kockelman: “Uma das razões que fazem as pessoas não usarem bicicletas é o medo dos carros. Com todos sendo tão multimodais, as bicicletas compartilhadas serão bem importantes.”

Como prevenir a abordagem “Vencedores e Perdedores” aos Transportes

Garry Tierney: “Temos que começar a pensar em consequências não intencionais. Onde estarão estas garagens? Onde armazenaremos todos esses carros? Precisamos tomar cuidado para não começar a colocá-los em comunidades onde a terra tem baixo valor. Os ricos teriam um bucólico domínio público, enquanto as áreas pobres estariam cercadas de veículos autônomos, como um enxame de moscas. Temos que ter consciência e fazer de tudo para que isso não aconteça. Hoje, este admirável mundo novo nos é mostrado com jovens entre 20-30 anos conectados, chamando seus Ubers e se divertindo, e, ali na esquina, a faxineira está em pé esperando o ônibus que nunca chega. Nós simplesmente não podemos deixar isso acontecer. Se estamos nos movendo em direção a um sistema de trânsito autônomo e descentralizado, nós precisamos nos assegurar de que a acessibilidade é para todos, de que haverá um conceito de equiparação social no design.”

As cidades se tornarão mais densas ou mais espalhadas?

Alain Kornhauser: “O que acontece com as Levittowns do mundo? Pra mim, a implicação é, considerando a densidade residencial dos lares desejáveis, eu acho que voltaríamos para as fileiras de casas, como as dos anos 1920. Não seriam necessariamente arranha-céus, como uma Pequim.”

Paul Lewis: “Se você tem políticas que encorajam o acúmulo e casas para famílias de solteiros, e esse estilo de vida continua a ser acessível, é o resultado que você terá. Tem a ver com o jeito que formatamos políticas.”

Garry Tierney: “O argumento que se discute é que, com essa tecnologia, as pessoas podem se mudar para qualquer lugar da Bay Area [São Francisco]. Discute-se que mais gente vai morar mais longe dos centros, nos subúrbios. As pessoas fundamentalmente escolhem morar onde elas querem morar. Eu acho que, em geral, nós estamos vendo uma situação agora na qual as pessoas querem viver na cidade, sem precisar da infraestrutura de trânsito, autônoma ou não. Não importa o barulho que essa tecnologia faça. Eu acho que muita gente vai querer viver num bairro central por muitas razões que vão muito além do trânsito.”

Dr. Kara Kockelman: “Uma grande preocupação que tenho com as cidades, estados e regiões é o excesso de viagens. Eu acho que haverá regras para enviar um veículo vazio ou quantas viagens vazias um operador de frota pode gerir. Nas simulações que fizemos em Austin, nós constantemente vemos 8% ou menos milhas viajadas com veículos vazios. Se as pessoas compartilharem, isso reduzirá as viagens com carros vazios. Mas se os carros derem a ideia às pessoas de que elas podem ir mais longe e mais facilmente, isso é uma grande preocupação. Acho que precisaremos de um modelo de preço baseado em créditos de congestionamento.”

Paul Lewis: “Nos esquecemos que para um carro nos levar de um ponto A ao B, por si só, há um caminho muito, muito longo. No curto prazo, vemos carros andarem com autonomia, num ambiente controlado, em rodovias e vias expressas. A condução autônoma já começou em faixas adaptadas e com controle de velocidade de cruzeiro. Fazer longos deslocamentos mais fáceis poderia aumentar o número de pessoas pegando o carro para ir trabalhar, porque é mais fácil, e aí haveria mais gente precisando de mais vagas de estacionamento.”

Veja o artigo original:
http://www.curbed.com/2016/2/25/11114222/how-driverless-cars-can-reshape-our-cities

Beia Carvalho
*Palestrante futurista
beia@5now.com.br

 

 

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