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Futuro das Câmeras

Por Beia Carvalho

Traduzi este artigo do New York Times, que termina com uma afirmação daquelas de arrepiar você inteiro, não só o cabelo!

As câmeras inteligentes não irão apenas observar você – elas também vão te entender.

Quem é que vai querer ou precisar de uma Câmera que “pensa”?

Parece que o mercado tem muito mais gente que quer saber tudo o que está acontecendo em suas casas, enquanto estão fora ralando no trabalho.

Leia esse relato do jornalista Farhad Manjoo, ele mesmo um louco por registrar tudo que se passa com sua família. Ele fez um “test-drive” com 2 destas super novas câmeras com Inteligência Artificial. A Clips, da Google e a Lighthouse. Boa leitura.

O Sublime e Assustador Futuro das Câmeras Com Inteligência Artificial 

Uma nova geração de câmeras, como a Google’s Clips, pode entender o que elas veem, criando possibilidades intrigantes e, algumas vezes, inquietantes.

Alguma coisa estranha, assustadora e sublime está acontecendo com as câmeras que vai complicar tudo o que sabemos sobre fotos. As câmeras agora tem cérebros. Até a poucos anos, quase todos as câmeras – de smartphones ou não, ou de circuito fechado de televisão para vigilância – eram como olhos sem nenhuma inteligência.

Elas capturavam qualquer coisa que você pusesse em frente delas, mas elas não tinham a mínima ideia do que elas estavam vendo. Mesmo os fatos mais básicos do mundo lhe escapavam. É louco, por exemplo, que em 2018, seu smartphone não detecte automaticamente quando você tira uma foto de você nua e ofereça a opção de armazená-la numa super especial uma camada extra de segurança.

Mas tudo isso está mudando. Está chegando uma nova geração de câmeras que entendem o que elas veem. Elas tem olhos conectados com o cérebro, são máquinas que não apenas veem o que você põe na frente delas, mas podem tomar decisões sobre o que veem – criando possibilidades intrigantes e, algumas vezes, inquietantes.

No início, essas câmeras nos prometem tirar fotos melhores, capturar momentos que seriam impossíveis com as câmeras burras de antigamente. Esse é o pitch (argumento de venda) que a Google está fazendo com a Clips, uma nova câmera que começou a ser vendida nesta quinta feira (2 março). Ela usa machine learning* (aprendizagem automática) para tirar automaticamente fotos de pessoas, pets e outras coisas que ela achar interessante.

Outras estão usando Inteligência Artificial (IA) para fazer com que as câmeras sejam mais úteis. Você já ouviu falar que o novo iPhone da Apple usa reconhecimento facial para desbloquear seu iPhone. A startup Lighthouse AI quer fazer algo similar para sua casa, usando uma câmera de segurança que adiciona uma camada de inteligência visual às imagens que ela vê. Quando você instala a câmera na entrada de sua casa, ela pode analisar constantemente a cena, alertando você se o passeador do seu cão não voltou, ou se as suas crianças ainda não chegaram em casa depois da escola, na hora prevista.

Nem precisamos ir longe para imaginar as possibilidades úteis e assustadoras de câmeras que podem decifrar o mundo. As Câmeras Digitais trouxeram uma revolução para a fotografia, mas até o momento, era só uma revolução de escala: graças ao microchips, as câmeras ficaram menores e mais baratas, e começamos a carregá-las o tempo todo.

Agora, a Inteligência Artificial (IA) vai criar a revolução de como as câmeras funcionam, também. Câmeras inteligentes deixam você analisar fotos com precisão inconteste, aumentando o espectro de um novo tipo de vigilância  — não apenas pelo governo, mas por todos a sua volta, até os seus entes mais queridos dentro de casa.

As empresas que fabricam esses equipamentos estão cientes dos perigos de privacidade. Muitos estão entrando no mercado cautelosamente, espalhando seus produtos com salvaguardas que eles dizem reduzir o nível de horror.

Veja a Clips do Google, que usei nestes últimos 10 dias. É um dos equipamentos mais inusitados que já vi. A câmera é do tamanho de uma latinha de Altoids, sem nenhuma tela. Na parte da frente tem uma lente e um botão. O botão tira a foto, mas só está ali se você realmente precisar dele.

Na realidade, na maior parte do tempo, você confia na intuição da câmera, que foi treinada para reconhecer expressões faciais, luz, enquadramento e outras qualidades de uma foto bem feita. Ela também reconhece rostos familiares – as pessoas com quem você passa mais tempo são aquelas que ela julga serem as mais interessantes para serem fotografadas.

A Clips, que está sendo vendida por US$ 249 (R$ 850) transforma o ato de tirar fotos em algo inconsciente e invisível. Fácil de carregar, tem um clip que se adapta em suas roupas, na mesa, na palma de sua mão ou qualquer lugar com uma vista.

Daí pra frente, fica por conta da Inteligência Artificial.

A Clips fica observando a cena e quando vê algo que acha que vai dar numa boa foto, ela captura uma foto de 15 segundos (burst picture), algo como um GIF animado, ou a Live Photo do iPhone.

Viajei com a minha família para a Disneylândia, na semana passada, e durante 2 dias eu quase nem tirei uma foto (com tanto para ser fotografado!). Em compensação, esse trequinho automaticamente capturou mais de 200 fotos (clips) de nossas férias.

Algumas delas ficaram muito boas, pegaram os pontos altos de nossa viagem do mesmo jeito que eu teria tirado com o meu celular. Mas o interessante mesmo foi tudo que eu não teria capturado conscientemente.

A Clips pegou momentos das minhas crianças distraídas, se divertindo, brigando nas filas intermináveis da Disney, dançando como loucos  — momentos super espontâneos ou insignificantes para que eu apontasse a câmera, mas que provavelmente registrou nossas vidas de forma mais fidedigna para daqui a 30 anos.

Leitores habituais desta coluna sabem que capturar momentos da infância de minhas crianças é uma das minhas grandes ansiedades; eu até instalei minha câmeras pela casa toda para guardar um tipo de reality show da vida em minha casa. Mas você não precisa ser tão louco como eu  — de ter medo de perder o que suas crianças ou seus pets estão fazendo constantemente, mas que seu smartphones geralmente não registra. Uma câmera inteligente pega todo esse tempo porque não te faz perder esse momento para capturá-lo. Mas, obviamente, que deixar ali uma câmera que não tem que torar fotos específicas, é um problema e levanta a lebre de ser espionado  — tanto pela Google, ou por você, para espionar os outros.

Google trata essa questão de 2 formas. A câmera está na maior parte do tempo desconectada da internet. Não precisa estar conectada para tirar fotos, e você precisa de seu celular para ver ou salvar as fotos. Mais ainda, tudo que acontece com a IA precisa rola na câmera, você nem precisa ter uma conta Google, diz a empresa.

“Gastamos muito tempo pensando no tema da privacidade para ter a certeza que esse seria um equipamento que as pessoas gostariam de ter,” disse Eva Snee, que chefia a pesquisa Google sobre como as pessoas interagem com a Clips. “O que a gente aprendeu, é que as câmeras não assustam as pessoas quando elas são usadas deliberadamente e a pessoa é parte do processo.”

A presença da Clips traz à memória outros produtos na mesma vibe, como o Snap’s Spectacles e o Google Glass, que também não conseguiram fazer com que os consumidores usassem óculos para tirar fotos.

Para fugir disso, a Clips foi desenhada para se parecer com uma câmera. Quando está ligada, um LED branco pisca dando o sinal de que pode estar gravando. Ela tampouco grava áudios, porque aí sim pareceria uma câmera-espiã.

A câmera Lighthouse, que eu também usei por algumas semanas, foi feita para ser uma versão melhor das câmeras de segurança interna interconectadas, que se tornaram tão populares. Esses equipamentos são muito chatos porque eles disparam toda vez que percebem algum momento.

O truque especial da Lighthouse é o sistema da câmera que pode sentir (identificar) espaços 3D e aprender e reconhecer faces  — uma  inteligência pensada para evitar alarmes falsos. Ela também tem uma sofisticada interface de linguagem, para que você possa fazer perguntar naturalmente: “O que as crianças fizeram enquanto eu estava fora?” Ela vai mostrar vídeos (clips) de suas crianças enquanto você estava fora.

A câmera Lighthouse está à venda por US$299, (R$ 1.020) requer uma assinatura mensal de US$10, e passa a sensação de um projeto em andamento (work in progress). Ela foi mais precisa em diferenciar as pessoas na minha casa, mas também se enganou com um desses balões metálicos, que estava flutuando no meu quarto, pensando que era um intruso.

A empresa é jovem e aposta na melhoria de seu software. Consigo ver uma utilização genuína para as pessoas que querem saber o que se passa em suas casas quando elas estão fora. Quer saber se o seu cachorro está pulando no seu sofá? Pergunte pra Lighthouse; ela pode reconhecer cachorros pulando pelos sofás da casa e instantaneamente lhe mostrar um vídeo.

Mas e se você estiver preocupado com a sua mulher, e não o seu pet? Eu confio na minha mulher, mas por uma questão de clareza desta coluna, eu pedi para a câmera me mostrar qualquer vídeo de minha mulher com alguém estranho. E ela me enviou minha mulher numa noite com a baby sitter, que a Lighthouse nunca tinha visto antes. Foi um caso flagrante de espionagem em minha família. Mas é uma possibilidade óbvia com uma câmera que entende o mundo tão bem.

O presidente da Lighthouse, Alex Teichman, disse que poderia adicionar salvaguardas contra essa espionagem intrafamiliar, por exemplo, ao restringir a identificação facial apenas à rostos não reconhecíveis. Ele também apontou que o sistema tem vários tipos de sofisticados de controle de privacidade que permite que qualquer gravação seja desligada quando certo membros da família estão presentes.

Tanto a Lighthouse como a Clips são muito bem trabalhadas contra o fraude. Note-se que nenhuma delas permite mais espionagem do que você já pode fazer com seus smartphones. A vigilância social constante é a norma em 2018.

Mas elas são guias para o futuro. Amanhã, todas as câmeras terão suas capacidades. E elas não irão apenas observar você – elas vão entendê-lo.

.

NOTAS:
Foto: Doug Chayka/The New York Times
Artigo do New York Times por Farhad Manjoo

Beia Carvalho
*Palestrante futurista

beia@5now.com.br

A Mala do Futuro é uma Mala?

 A Roda surge no período Neolítico, a Idade da Pedra Polida, no 4º século antes de Cristo


Por Beia Carvalho

Aqui e ali, há mais de 5.000 anos surgiu a roda. Cinco mil anos!

A história da humanidade bem rapidinho

De lá pra cá muita coisa foi feita para usar uma, duas, quatro ou cinco rodas.

Mas é quase inacreditável pensar que até 50 anos atrás estávamos nos digladiando para carregar nossas (pesadas) malas. Eu sofri muito. Sou daquelas fracotes, sem força para pesos ou para abrir vidros de geleia. Aplaudi de pé a chegada das malas com rodinhas.


Comercial da Bluesmart sobre a Evolução das Malas: tem localizador, carregador de baterias USB, cadeado digital, balança integrada, alertas de distâncias, itinerários de viagem, status de viagem.

A inovação reverenciada por viajantes do mundo todo é de 1972! Pensa nisso: o homem foi pra lua antes de deslizar uma mala pelos corredores de um aeroporto!

E no ano seguinte, surgiu a cadeira de escritórios com rodinhas, de 1973.
Dizem que Charles Darwin, há mais de 150 anos, colocou rodinhas em sua
poltrona para ganhar mais mobilidade. Mas a “inovação” morreu com o gênio.

Meu amigo Edu Freire testando a Mala Patinete

Meu amigo Eduardo Freire, um peso pesado em todos os sentidos, postou outro dia sua estripulia de usar sua mala como patinete. A cena me fez pensar como conseguimos conviver com a inconveniência e o desconforto, que malas sem rodinhas nos impuseram por séculos.

Por que as malas não sofreram nenhuma inovação? Sim, mudamos um pouquinho aqui e ali,
basicamente experimentando materiais, de plástico duro ou tecidos leves de nylon a fibras de carbono.

 

Pouca inovação e muita maquiagem não foram privilégios das bagagens.
Ironicamente, é o cenário mais comum em um mundo desesperado por
inovação. Raro assistir a algo que infrinja uma ação diretamente no coração
de produtos e serviços.

E pensa que foi fácil convencer as empresas a comprarem e as pessoas a
usarem a maravilha de uma mala que rola? Não foi, não! Bernard D. Sadow
era então vice presidente de uma fábrica de malas, a US Luggage e colocou
a patente das rodinhas, em 1970.

A mala com rodinhas é uma inovação por combinações inovadoras. Este é
um dos 3 tipos de inovação, que discorro em minhas palestras. Como fazer
combinações inovadoras? Pra começar, diz o mestre Einstein, imaginar é
mais importante que conhecer. Tudo começa com um olhar que não tem
medo de imaginar. É disparar um novo olhar, um olhar fresco, um olhar de
olhos que querem enxergar.

Bernard, que convivia com malas em seu trabalho, um dia olha um
carregador empurrando uma máquina pesadíssima sem fazer esforço algum,
auxiliado por plano com rodinhas. Milhares de pessoas viram a mesma cena
muito antes daquele dia e naquele dia. A diferença é que Bernard olha, vê e
enxerga. ‘É disso que as malas precisam, disse a sua mulher.

Chega em casa, arranca os rodízios de um baú e os coloca numa mala bem
grande. Daí, amarra uma alça na frente da mala e puxa. Funcionou!.

Prototipar é uma fase da maior importância no processo de inovar –
ironicamente uma das mais negligenciadas. Nascia uma inovação, que iria se
massificar depois de muita ralação a partir da aceitação da poderosa loja de
departamentos Macy’s com o anúncio “A Mala que Patina”.

Em 1987, o piloto de aviação Robert Plath inventa a Rollaboard: 4 rodinhas,
alça retrátil deslizando de pé. E assim, a mala de 4 rodinhas enterra a super
inovação de Bernard Sadow, que demorou tanto tempo para acontecer e
reinou sozinha por apenas 15 anos.

Ao final do ano passado, palestrei sobre um novo tema Integrutopia, e
perguntava à plateia: “O que não vemos?”. Por que por tanto tempo não
vimos as rodinhas em cadeiras e malas? O que estamos deixando de ver
hoje?

É interessante notar que uma vez “destapada” a tampa da inovação ela
parece se mover com uma nova e turbinada força. De 1972 até hoje os
pequenos incrementos e inovações não cessaram. A Mala Patinete, a Mala
que vira cadeira, mesinha pro laptop, que não amassa sua roupa e a Mala
Inteligente: aquela que te segue.

Mas será qual o papel dos wearables nas bagagens de viagens? Vamos
teletransportar nossas coisinhas? Ou vamos carregar o que é realmente
pessoal em um casaco com 26 bolsos e alugar tudo o que precisamos no
local de chegada? Qual é o próximo passo?

Num mundo tecnológico e globalizado e preocupado com a pegada de carbono seria de se esperar que as pessoas não precisassem viajar tanto.

Não é o que acontece. O fenômeno da mobilidade mundial começou no início do século passado e parece ter um fôlego inesgotável.

Está aí um campo que vai precisar muito da sua imaginação. Afinal, que malas vamos levar na viagem espacial para Marte?

NOTAS:

Bernard D. Sadow comprou a empresa US Luggage. Morreu em 2011 aos 86 anos.
Charles Darwin (1809-1882), naturalista inglês que desenvolveu a teoria da evolução a partir da seleção natural em seu livro “A Origem das Espécies” de 1859.
Rolling Luggage: patente número 3.653.474, United States, 1970.
Veículos com rodas: https://pt.wikipedia.org/wiki/Roda
Cadeira Synthesis 45 produzida pela Olivetti, em 1973, ergonômica, e
encosto com 2 articulações.
Aeron chair, 1992, desenhada por Don Chadwick e Bill Stumpf e produzida
por Herman Miller.
What came first? Wheeled luggage or a man on the moon?
https://betafactory.com/what-came- first-wheeled- luggage-or- a-man- on-the-
moon-20f8b22529a3
A mala Bluesmart tem localizador, carregador de baterias USB, cadeado
digital, balança integrada, alertas de distâncias, itinerários de viagem, status
de viagem etc.
Eduardo Freire é CEO e co-fundador da Framework: Consultoria e Projetos
de Educação e Inovação.
Reinventing the Suitcase by Adding the Wheel:
https://www.nytimes.com/2010/10/05/business/05road.html

Beia Carvalho
*Palestrante futurista

beia@5now.com.br

2018: presentão para chineses 60+

Marcas na mira da Economia Prateada, da China

Por Beia Carvalho

2018 começa com um presentão para os acima de 60. Pelo menos, para os chineses.

Daqui a 2 anos, a China terá 255 milhões acima de 60 anos, um mercado intocado valendo potencialmente bilhões de dólares. Serão quase 20% de toda a população chinesa.

Mas essa virgindade acaba de ser perdida com o lançamento do aplicativo Taobao, para a população acima dos 60. Taobao é um hipermercado online como um Mercado Livre ou Ebay, fundado pela gigante do mercado eletrônico chinês Alibaba.


Taobao: hipermercado como Mercado Livre ou Ebay, parte da rede Alibaba

Traduzi livremente o artigo da Business Insider “Esqueça os Milênios — Alibaba está investindo em um surpreendente mercado na China, tão forte quanto seus 222 milhões de consumidores” e o post da Trendwatching “Innovation of the Day, Alibaba.”

Quem me segue, sabe de minha curiosidade e paixão pela tendência da Longevidade, tão forte na China e Japão, que já estão no mainstream do mercado. A economia prateada está provando a linha de leite para consumidores chineses acima de 50 lançada pela Nestlé. E os iPads modificados pela IBM e Apple, com textos maiores e interfaces mais simples para o mercado japonês, onde a população prateada corresponde a estonteantes 1/4 da população!

IBM e Apple com textos maiores e interfaces mais simples para idosos do mercado japonês

No mês passado, a Alibaba lançou uma versão super-simples-de-usar de seu aplicativo Taobao tendo em mente a população mais idosa. E apesar do interface ser muito mais simples, os mais velhos podem acessar as mesmas utilidades – como as sugestões de compras personalizadas e conteúdos transmitidos em tempo real – idênticos àqueles do aplicativo original. Taobao também adicionou uma função que permite que o target mais velho entrar em contato com suas famílias ao toque de botão. Mais de 30 milhões de usuários do Taobao tem mais de 50 anos.

Geralmente, o que mais vemos são empresas respondendo às necessidades das gerações Y (entre 21-38 anos) e Z (9-20 anos). Os estereótipos ditam que os consumidores mais jovens são ‘nativos digitais’, radicalmente diferentes de seus pares mais velhos, os ‘imigrantes digitais’.

Será mesmo verdade? Veja que interessante este sinal dos novos tempos: o número de anfitriões idosos que recebem hóspedes pelo Airbnb, na Ásia, está crescendo mais rápido que qualquer outro grupo etário. Talvez o desejo por conexões significativas possa ser estendido para além dos 18-24?

Note também, que o Taobao não usou a ‘simplificação’ como uma desculpa para economizar nas suas ofertas essenciais. Os consumidores mais velhos estão cada vez mais exibindo os mesmos comportamentos (digital ou não) e tem as mesmas expectativas. Satisfaça-os, mas não os trate de forma diferente!

Para incrementar e manter seu aplicativo atraente para seu target, Alibaba postou uma vaga para pessoas acima de 60 e recebeu 1.000 currículos, em 24 horas. O interessado mais velho tem 83 anos!

A supercentenária japonesa Nabi Tajima é a pessoa mais velha do mundo com 117 anos e 192 dias, em fevereiro/2018

E para fechar, estou eu aqui de volta. Marcas que infantilizam os mais velhos, que tratam estas gerações como “deficientes” ou “pouco inteligentes”, estão fadadas a serem rechaçadas diante das marcas que realmente compreendem suas dificuldades e as superam com o uso cirúrgico da tecnologia – ao mesmo tempo, que os tratam como o que realmente são: consumidores.

Muito podemos aprender com as tentativas e os erros das empresas que estão explorando a economia prateada, na Ásia. Elas não tinham em quem se espelhar. Nós não teremos esta desculpa.

Os centenários fazem parte do grupo etário que mais cresce no mundo. Durma com essa!

NOTAS
Artigo da Business Insider, clique aqui:
Esqueça os Milênios — Alibaba está investindo em um surpreendente mercado na China, tão forte quanto seus 222 milhões de consumidores
Taobao fundado em 2003. Versão para idosos em janeiro 2018.
Alibaba fundado em 1999.
Airbnb permite aos indivíduos alugar o todo ou parte de sua própria casa, como uma forma de acomodação extra.
A supercentenária japonesa Nabi Tajima é a pessoa mais velha do Japão e a pessoa mais velha do mundo. As 3 pessoas mais velhas do mundo são mulheres, na data de hoje, 13 fevereiro de 2018. Os supercentenários tem acima de 105 anos.

Beia Carvalho
*Palestrante futurista

beia@5now.com.br

Pipa, Futuro, Colaboração e Carrefour?


Lagoa formada por marés na Praia da Pipa, RN

Por Beia Carvalho

Acabo de chegar de férias. Da Praia de Pipa trouxe um exemplo que caiu como uma luva para a minha palestra na Convenção do Banco Carrefour. O evento foi digno de nota! Tudo apontando para o mesmo lugar, o futuro: conteúdos, cenografia, palestrantes, formatos, participação. Meu tema: Futuro & Colaboração.


1º slide da palestra sobre COLABORAÇÃO para o Banco Carrefour – jan2018

Há uns 2 anos, a maré da praia central de Pipa, subiu demais da conta e formou essa maravilhosa lagoa, chamada pelos nativos de “maceió”, com barquinhos, que te atravessam pra lá e pra cá. Dê uma olhadinha na foto: distinguiu a lagoa, praia e mar? Tudo muito lindo, não? Pois bem, depois de um tempo, essa maravilha começou a feder e a Prefeitura tomou uma decisão: cavar um caminho, bem no meio da lagoa (sinalizado na foto pela bolinha vermelha), para esvaziar a lagoa jogando seu lodo no mar.

Costumo caminhar muito cedo na praia, não aguento o solzão da linha do Equador. Eram 7 da manhã, quando vi aquele trator enorme cavando o túnel entre a lagoa e o mar. Como sempre acontece nessas ocasiões, tem uma pessoa trabalhando e um monte de gente olhando e palpitando.


Lagoa formada por marés na Praia da Pipa, RN

Nem era tanta gente assim, a maioria pescadores e nativos começando os preparos para mais um dia de rachar o coco. E o zunzunzum comendo solto. Fui me aproximando e compreendi a indignação: na opinião dos nativos, o local do túnel estava totalmente errado. Deveria ter sido cavado no extremo norte da lagoa (sinalizado na foto pela bolinha azul), por 2 razões: primeiramente, porque aquele é o ponto mais profundo da lagoa. Segundo, porque o mar ao norte é mais profundo, com marés mais agressivas, o que levaria a água lodacenta da lagoa muito mais rapidamente para o alto mar.

Dito e feito. Assim que o tratorista abriu a “comporta”, a água correu para o mar e … logo parou. Como previsto, a água marrom invadiu a praia bem ao centro, e lá ficou até o final do dia, sem força para alcançar rapidamente o alto mar. Permitam-me uma pequena digressão: o prefeito achou que esse era o timing perfeito para tomar essa decisão? No alto verão de Pipa, enfeando o magnífico azul desta praia?


Tunel cavado na entre a lagoa e o mar da Praia da Pipa, RN

Voltando. Dali alguns dias, revejo o trator cedinho na praia. Ingenuamente, conclui que o prefeito havia dado atenção aos múltiplos olhares que sempre estão presentes ao redor de qualquer problema. Traduzindo, que havia dado ouvidos aos nativos. Bobinha. Necas! O trator se posicionou exatamente no mesmo local, e apenas cavou um pouco mais profundamente. A patética cena se repetiu: uma insignificante quantidade de água escorreu para o mar. E a lagoa continua lá. Linda e fétida. Para você ter a dimensão da quantidade de água, a foto que tem as bolinhas foi tirada dias após a segunda investida do prefeito!

Bem, e daí?

Meu ponto é que não existe ambiente colaborativo (entenda-se: um ambiente físico ou virtual, onde ideias dissidentes, divergentes e heréticas possam ser livremente expressadas) numa estrutura hierárquica com o poder centralizado.


Estruturas em rede desenhadas de forma simples e genial por Paul Baran

Portanto, se quisermos construir ambientes, momentos ou uma existência de colaboração temos que mudar as estruturas hierárquicas, formais e vagarosas, com vozes de comando top-down, e que nos trazem uma falsa sensação de segurança; para estruturas em rede, mais ágeis, que acolhem a diversidade tão cara à inovação. Nas estruturas em rede, desenhadas de forma tão simples e genial por Paul Baran, o conhecimento e o poder estão distribuídos. Se um pescador morre, o conhecimento não se perde na rede distribuída.

O exercício que proponho é passarmos os nossos problemas por esse filtro, pelo “corredor polonês” das redes: estamos resolvendo os nossos problemas como a Prefeitura de Pipa? Pergunte-se:

  • Estamos resolvendo nossos problemas de forma centralizada, sem ouvir os pontos de vista dos diversos olhares em torno de um mesmo problema?
  • Temos alguma dúvida de que os nativos conhecem muito mais e tem uma experiência concreta e acumulada sobre as marés e “maceiós” das praias de Pipa?

Faça esse exercício: substitua os “nativos” por “estagiários” e pense quantas vezes você achou que tinha algo a ganhar se ouvisse a voz de um estagiário.

Veja, que nem diante do primeiro fracasso da Prefeitura, ela cogitou em consultar alguém, antes de repetir o mesmo erro e cavar no mesmo local. Por que? Porque nas estruturas hierárquicas não há espaço para o reconhecimento de erros. Chefes não erram. Isso é coisa de líder, rs.

E durante a sua fala, na abertura da Convenção, Paula Cardoso, a CEO do Banco Carrefour trouxe muitas ideias de exercícios sobre como aprender com os erros. Este é o mindset: expor e agir sobre o erro e não varrê-lo pra debaixo do tapete.

A rede distribuída é terreno fértil, sua dinâmica, seu oxigênio é a colaboração. Sem atmosferas de engajamento, onde o conhecimento possa ser facilmente compartilhado, a colaboração fica sufocada.
Sem ambientes colaborativos, aquele “grito” dos nativos literalmente morre na praia. A liderança colaborativa te coloca no eixo da visão. O chefe, só quer estragar o seu dia.

NOTAS


Estrelas do Futuro: o Chefe e o Líder

–Para mais sobre assuntos sobre a nova Era, assista a minha mini série “Estrelas do Futuro” baseada no filme Hidden Figures sobre as matemáticas negras da NASA. São 3 vídeos: 1) Visão de Futuro e Liderança, 2) Igualdade de Oportunidades 3) Caindo na Real.

–A presidente do Banco Carrefour Brasil, Paula Cardoso, reuniu 4 palestrantes mulheres para inspirar sua plateia para o Futuro. Eu fui uma delas e falei sobre #Futuro & #Colaboração. Os participantes puderam escolher por app quais das palestrantes queriam assistir. Foi incrível! As outras 3 palestrantes simultâneas foram com Monica de Carvalho, do Google; Ana Cortat, da Miami Ad School; e Lala Deheinzelin, da Crie Futuros. Cenografia incrível da Trade Plus. Parabéns, Luciana Mello .

–Paul Baran, 1926-2011. Um dos inventores da rede de comutação de pacotes, junto com Donald Davies e Leonard Kleinrock. Mais na Wikipedia.

–Corredor polonês é o nome popular dado a uma passagem estreita formada por duas fileiras de pessoas alinhadas lado a lado, todas voltadas para o centro. O objetivo é maltratar, seja com pancadas ou com o uso de porretes ou arma branca, quem é forçado cruzar a passagem, como forma de represália a alguém que se posiciona contrário a certo ideal ou pessoa.

–Meus agradecimentos a minha amiga Flavia Moura, cearense morando em Pipa, por todos os momentos incríveis que compartilhamos.

#palestra #futuro #colaboração #engajamento #futurista #beiacarvalho #carrefour #eventotop #acreditenamudança #vamosjuntos #transformaçãodigital

Beia Carvalho
*Palestrante futurista

beia@5now.com.br

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