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Crise na Península Arábica: a ruptura com o Catar

Por Vinicius Melleu Cione*

No dia 05 de junho, o mundo assistiu surpreso à ruptura das relações diplomáticas por parte de quatro países árabes − Arábia Saudita, Bahrein, Egito e Emirados Árabes Unidos (E.A.U.) − com o Catar, sob o pretexto de que a monarquia “apoia organizações terroristas” e contra sua alegada proximidade com o Irã. No dia 23, este grupo, ao qual se somaram Líbia, Iêmen e Maldivas, enviou uma lista contendo treze ações que Doha deveria cumprir no prazo de dez dias para que as negociações fossem retomadas, prontamente rechaçadas pelo regime catariano por constituírem uma violação de sua soberania.

A surpresa se dá principalmente porque os países em questão não têm grandes divergências políticas, conformando inclusive várias organizações em conjunto, como o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), a Liga Árabe e a OPEP.

O fato de a ruptura ter-se produzido sem qualquer provocação pela parte catariana e de forma tão repentina, sem prévias advertências, sugere que o afastamento diplomático já estava sendo premeditado e muitos analistas o têm relacionado à visita do presidente Donald Trump à Arábia Saudita entre os dias 20 e 22 de maio.

Cabe enfatizar a liderança da Arábia Saudita neste bloco anti-Catar, uma vez que se trata de uma potência regional fortemente militarizada, o maior país árabe da Ásia, o principal exportador mundial de petróleo e o detentor da segunda maior reserva de petróleo e a sexta maior reserva de gás natural do mundo.

Ainda que não tenham a mesma força que a monarquia saudita, o Egito e os E.A.U. também merecem um destaque: o primeiro por contar com a maior população do mundo árabe, uma economia diversificada e o estratégico Canal de Suez e o último por ser um dos países mais ricos do mundo (em PIB per capita), ter um IDH considerado “muito elevado”, além de uma pujante economia baseada em turismo, construção civil e combustíveis fósseis, com a sexta maior reserva de petróleo do mundo.

O Catar, por sua vez, tem o segundo maior PIB per capita do mundo, é o principal produtor de gás natural liquefeito e compartilha um vasto território subaquático com o Irã. O país mantém também uma política internacional mais independente de injunções externas e, em certo sentido, mais pragmática, articulando com grupos que os outros governos da região evitam dialogar, mas que constituem inegavelmente atores importantes no cenário local, como a Irmandade Muçulmana egípcia, o Hamas palestino e militantes xiitas do Iraque. Por fim, é de fundamental importância a rede de telecomunicações Al Jazeera, que, em muitos temas, alcançou um nível de liberdade de expressão rara entre as submissas emissoras dos outros países da região.

O afastamento tem consistido até agora na expulsão de cidadãos catarianos, num pesado embargo econômico e na imposição de um bloqueio aéreo, marítimo e terrestre a um país que tem a Arábia Saudita como único vizinho em sua fronteira por terra. É importante ressaltar este “até agora”, pois, dependendo da duração do bloqueio diplomático, Doha poderia ainda se retirar dos blocos de integração regionais e em último caso − como uma hipótese bem remota dadas as severas implicações para a economia política internacional − seria possível até que a tensão escalasse para um embate militar.

O Egito aliás mantém uma postura ainda indefinida quanto ao Canal de Suez, pois permitiu a passagem de um navio com uma carga considerável de gás natural catariano com destino à Espanha no dia 09, mas barrou outro no dia 14 que se dirigia à Inglaterra, obrigando-o a refazer a rota pelo Cabo da Boa Esperança (o dobro do percurso previamente planejado).

No caso dos Estados Unidos, sua posição no conflito é ambígua. É muito provável que a Arábia Saudita esteja agindo em coordenação com a grande potência, ainda mais diante da proposta de uma “OTAN árabe” − a ser liderada pelos próprios sauditas e contrapondo-se principalmente ao Irã − anunciada no momento da visita do representante dos EUA ao país.

É significativo ainda o fato de o presidente Trump ter escolhido Riad como seu primeiro destino internacional. Os tweets que postou pouco depois da eclosão da crise diplomática, endossando as críticas ao Catar, indicam uma forte inclinação da política externa da grande potência a favor da ação saudita.

Por outro lado, pode ser que o presidente dos EUA tenha sido “forçado” a aceitar tal atitude, devido à força do lobby saudita em Washington e à sólida estrutura político-militar do país na Península Arábica. Deve-se recordar que os Estados Unidos mantêm boas relações com todos os países envolvidos e a base militar de Al Udeid, no Catar, é importante em suas operações no teatro de guerra sírio.

Outro indício desta ambiguidade está na operação de venda de armas ao Catar durante esta crise, o que configura uma suposta “contradição” diplomática.

No dia 14, os ministros da Defesa dos EUA, Jim Mattis, e do Catar, Khalid Al Attiyah, firmaram um acordo de US$12 bilhões pelo qual o país árabe comprava 36 aviões F-15 da superpotência. Além disso, no mesmo dia, dois navios de guerra dos EUA chegaram a Doha para um exercício militar conjunto com a marinha de guerra catariana.

Impôs-se, então, outro problema. O presidente Donald Trump, seis dias antes, denunciara o Catar como “patrocinador do terrorismo em alto nível”. Porém, ao vender aviões de guerra para os catarianos e realizar tais exercícios militares, a potência se colocou numa posição de apoio a um país que, como ela mesma reconhece, patrocina terroristas.

Na realidade, a questão de fundo não está no “apoio ao terrorismo”.

Como expôs o jornalista britânico Patrick Cockburn em seu A origem do Estado Islâmico, “a importância da Arábia Saudita na ascensão e retorno da Al-Qaeda é frequentemente mal compreendida e avaliada. O país é influente porque suas vastas reservas de óleo e riqueza o tornam poderoso no Oriente Médio e além. Contudo, não são apenas os recursos financeiros que o transformam em ator tão importante. Outro fator é seu papel na propagação do wahabismo, a versão fundamentalista do Islã, nascida no século XVIII, que impõe a lei da sharia, relega as mulheres ao papel de cidadãs de segunda classe e enxerga os xiitas e sufistas como não muçulmanos, que devem ser tão perseguidos quanto cristãos e judeus”. Ou seja, a acusação feita a Doha poderia igualmente ser feita a Riad − e talvez até com mais veemência.

É evidente que isso não implica dizer que o Catar não patrocine grupos terroristas, mas a acusação exclusiva a este país deve ser questionada.

Com efeito, o que está em jogo são as articulações político-militares locais e a disputa direta entre Doha e Riad por maior projeção.

Em termos político-diplomáticos, o diálogo do Catar com grupos como o Hamas e a Irmandade Muçulmana levaram a que Israel e Egito apoiassem prontamente a ruptura liderada pelos sauditas. O Bahrein, país de maioria xiita governado desde o século XVIII pela família sunita Al-Khalifa, acusou Doha de “incitação mediática, apoio a atividades terroristas e financiamento de grupos ligados ao Irã para sabotagem do país”. Ao mesmo tempo, Irã e Turquia têm sido, ao lado do Paquistão e de Omã, os grandes apoiadores do Catar.

Logo em seguida ao bloqueio ter sido estabelecido, por exemplo, as mídias sociais mostraram a corrida dos catarianos aos supermercados para compra e estocagem de água e comida, já que 40% dos alimentos consumidos no país vêm pela fronteira saudita. O Irã rapidamente se ofereceu para suprir estas necessidades alimentares, sendo em seguida secundado por Omã, e a Turquia, por sua vez, reafirmou sua aliança militar com o Catar e enviou uma tropa de 5.000 pessoas ao país.

A lista de 13 medidas recentemente enviada pelo bloco anti-Catar revela as motivações reais desta pressão diplomática. As principais exigências são: o fechamento imediato da rede Al Jazeera, entre outras emissoras catarianas; o completo afastamento político-diplomático em relação ao governo do Irã e de organizações terroristas; o fim da cooperação militar com a Turquia; a revogação da cidadania catariana de pessoas que tenham violado as leis dos quatro principais países do grupo, além da pronta entrega destes indivíduos aos seus respectivos governos; e a bizarra demanda de auditar o país sistematicamente durante a próxima década.

O Catar é um país muito importante para ser simplesmente afastado da esfera política no Golfo, mas, mesmo que as partes envolvidas cheguem enfim a um acordo e ocorra uma gradual distensão, a tendência será oposta à almejada atualmente pela Arábia Saudita. É bem provável que Doha preferirá diversificar suas alianças e parcerias a depender dos chamados “aliados tradicionais” que a qualquer momento podem lhe impor um forte bloqueio e, em seguida, a proposição de uma série de exigências draconianas para a retomada do diálogo.

A política saudita de pressão e humilhação ao Catar poderá ter como principal efeito o aguçamento da desconfiança deste país e a consolidação crescente de uma heterodoxa parceria Catar-Turquia-Irã e, eventualmente, Rússia, algo que iria completamente de encontro aos interesses de Riad.

Vinicius Melleu Cione
*Formado em Relações Internacionais e um dos diretores da Parthenon Consultoria Política.
vinicius@parthenoncp.com.br

Eleições na França: Macron e Le Pen disputarão o segundo turno

Por Vinicius Melleu Cione*

No domingo, dia 23, os franceses foram às urnas para decidir quem ocupará o Palácio do Eliseu pelos próximos cinco anos. Os dois candidatos mais votados foram o liberal-centrista Emmanuel Macron do partido Em marcha!, com 24,01%, e a candidata da ultradireitista Frente Nacional Marine Le Pen, com 21,3%, o que indica que a disputa irá para o segundo turno, a ser realizado no dia 07 de maio. A participação foi de 78,23%, ligeiramente inferior à registrada em 2012.

A França é uma República semipresidencialista, na qual se elege diretamente um chefe de Estado mediante o voto popular e este escolhe a direção do governo, o primeiro-ministro, posto que deve refletir a composição de forças dominante na Assembleia Nacional.

Durante a campanha, apesar de onze candidatos terem se apresentado, as pesquisas de intenção de voto indicavam como os quatro principais, além de Macron e Le Pen, o conservador François Fillon, de Os Republicanos, que acabou com 20% e o líder do partido de esquerda França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, que conseguiu 19,58% dos votos. O Partido Socialista, uma força política tradicional no país e grupo a que pertence o atual presidente François Hollande, conseguiu apenas 6,36% dos votos. Aliás, pela primeira vez na história da Quinta República francesa, os dois principais partidos políticos (republicanos e socialistas) estão fora do segundo turno.

Uma pesquisa divulgada no dia 20 pela Gallup indicou ainda que 43% dos cidadãos franceses não tinham mais confiança em seu governo e não tinham muitas esperanças para o futuro, percentagem bem superior a de 28% registrada nas eleições de 2012[1]. Entre os insatisfeitos, havia uma tendência maior a sentimentos anti-establishment e um rechaço não só em relação ao sistema político-eleitoral e financeiro, como também a toda a União Europeia. De acordo com a pesquisa, as bases para a insatisfação não eram necessariamente econômicas − quando perguntados sobre falta de recursos para comida ou habitação, “descontentes” e “satisfeitos” apresentavam porcentagens parecidas (12% e 10% no caso de comida, por exemplo). Entretanto, a diferença aumentava quando os dois grupos eram questionados quanto à percepção sobre seu padrão de vida: 26% dos primeiros não se sentiam contra 17% dos últimos.

Como aponta a Gallup, ainda que não exista uma carência de recursos, devido ao sólido sistema de segurança social promovido pelo Estado-providência francês, isso não implica que o país esteja passando por uma boa fase econômica.

Com efeito, as taxas de desemprego têm se revelado dramáticas desde a crise de 2008: em fevereiro deste ano, foi registrada uma cifra de 10%, que afeta de forma mais sensível (23,6%) a população com menos de 25 anos de idade[2].

O crescimento foi de 0,3% em 2016, a dívida do governo em relação ao PIB subiu de 68,1% em 2008 para 96% no ano passado e o país apresenta uma balança comercial deficitária (o último índice foi de -6,57 bilhões em fevereiro)[3].

A França vive uma desindustrialização acelerada (entre 2008 e 2016, 500 mil empregos na indústria foram destruídos), enquanto vê a outra grande potência da zona do euro, a Alemanha, num processo de franca ascensão. A participação da indústria no PIB do país caiu de 16,6% no ano 2000 para 12,4% em 2014. Embora grande parte desta queda deva ser explicada pelo crescimento verificado pelo setor terciário em todas as economias nacionais com o advento da terceira fase da Revolução científico-técnica, a maior parte da indústria no país tem sido impulsionada pela atividade agro-alimentar, o que indica uma preocupante primarização[4]. Em 2015, a França foi responsável por 11% dos produtos industrializados que circularam na União Europeia, situando-se em terceiro lugar no setor, depois de Alemanha, com 20% e Itália, com 13%.

A crise vivida pelo país dá elementos para entender a projeção de representantes e partidos não alinhados à chamada “política tradicional”: ainda que apoiado pelo setor das finanças, Macron lidera um movimento que se coloca contra o bipartidarismo no país e com um discurso de terceira via e Le Pen, por sua vez, propõe um “resgate da soberania francesa” com base num discurso refratário à União Européia e com fortes traços xenofóbicos.

Como já pontuado no texto “Reoriente-se: a retomada da ascensão asiática”, há uma estreita ligação entre a crise, a extrema direita e a retórica da antipolítica: “a crise econômica de 2008 atingiu diretamente as economias mais industrializadas e como afirma o ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis em seu O minotauro global, ‘o governo permitiu que o serviçal mais forte e grotesco do Minotauro Global tivesse um retorno poderoso após a queda da besta. Foi apenas um movimento dentre muitos que os políticos fizeram ao longo de um caminho que, ironicamente, levou-os ao seu próprio desempoderamento. Ao fortalecer o lado dos bancos falidos, eles privaram-se de qualquer possibilidade para a elaboração de políticas eficazes. Com os poderes de Wall Street restaurados, a política perdeu sua capacidade de conter o avanço da Crise’. Nos países ocidentais, tal restauração do poder da banca, facilitada por representantes dos mais variados matizes políticos, foi interpretada como fraqueza e traição pelo eleitorado. Ao mesmo tempo em que generalizou a apatia política e a sensação de falência institucional geral, a crise ressuscitou o nacionalismo de extrema-direita com seu discurso de culpabilização do outsider pela condição social adversa. São, em geral, votos de protesto e antiglobalização, causados por uma angústia contra a perda sentida de soberania nacional”.

Diversas forças políticas dentro e fora da França declararam seu apoio ao jovem candidato, entre elas se destacam o atual presidente François Hollande, o secretário geral do Partido Socialista, Jean-Christophe Cambadélis (quem afirmou se tratar de uma decisão unânime do bureau nacional do partido), o ex-candidato conservador François Fillon de Os Republicanos e o comissário europeu de Assuntos Econômicos Pierre Moscovici. Apesar de a empresa de pesquisa Opinionway indicar uma vitória fácil do ex-ministro da Economia contra a candidata da Frente Nacional por 61% a 38%, a eurofobia de Le Pen preocupa muitos políticos do continente, ainda mais num contexto de questionamento do bloco regional pós-Brexit.

As eleições na França têm, portanto, uma grande importância política. Está em jogo não somente o futuro do país, como também de toda a União Europeia, já que um eventual Frexit (saída francesa do bloco sinalizada por Marine Le Pen) desestabilizaria por completo o mercado comum. Como indicado pelas pesquisas, Le Pen pode até não vencer a disputa, mas o fato de um partido de extrema direita e anti-UE ter chegado ao segundo turno de um país tão central como a França indica que a crise político-econômica na Europa ainda está longe de seu fim.


[1] De acordo com o site http://www.gallup.com/poll/208781/france-primed-populist-wave-ahead-election.aspx, consultado a 23/04.
[2] De acordo com o site http://countryeconomy.com/unemployment/france, consultado a 23/04.
[3] De acordo com o site http://www.tradingeconomics.com/france/indicators, consultado a 23/04.
[4] De acordo com o site http://www.gouvernement.fr/partage/3813-l-industrie-en-france, consultado a 23/04.

Vinicius Melleu Cione
*Formado em Relações Internacionais e um dos diretores da Parthenon Consultoria Política.
vinicius@parthenoncp.com.br

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ReOriente-se: a retomada da ascensão asiática

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Por Vinicius Melleu Cione*

ReOriente-se: a retomada da ascensão asiática
(parte 2 – artigo dividido em 2 partes)

Leia também:
ReOriente-se: o continente asiático em foco
(parte 1 – artigo dividido em 2 partes)


Nos últimos anos, tem-se testemunhado uma série de mudanças político-econômicas muito relevantes no sistema internacional, principalmente relacionadas à reascensão do continente asiático frente aos países ocidentais.

De início, é necessário registrar a imprecisão da divisão do globo em duas metades, Leste e Oeste/Oriente e Ocidente, como se os países que destas regiões fazem parte tivessem algo que os unificasse e permitisse compreendê-los numa totalidade. O problema de se utilizar estas duas “personalidades geográficas”, mesmo com ressalvas, é justamente compactuar com um conjunto de imagens e valores geralmente associados a cada uma delas e reproduzi-lo. Por “países ocidentais” entendam-se, grosso modo, os países desenvolvidos da América do Norte e integrantes da União Europeia.

Atualmente, o fortalecimento político dos partidos xenofóbicos nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, o Brexit e a eleição de Trump revelam que há algo de podre no reino do “Ocidente”. A crise econômica de 2008 atingiu diretamente as economias mais industrializadas e como afirma o ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis em seu O minotauro global, “o governo permitiu que o serviçal mais forte e grotesco do Minotauro Global tivesse um retorno poderoso após a queda da besta. Foi apenas um movimento dentre muitos que os políticos fizeram ao longo de um caminho que, ironicamente, levou-os ao seu próprio desempoderamento. Ao fortalecer o lado dos bancos falidos, eles privaram-se de qualquer possibilidade para a elaboração de políticas eficazes. Com os poderes de Wall Street restaurados, a política perdeu sua capacidade de conter o avanço da Crise”. Nos países ocidentais, tal restauração do poder da banca, facilitada por representantes dos mais variados matizes políticos, foi interpretada como fraqueza e traição pelo eleitorado. Ao mesmo tempo em que generalizou a apatia política e a sensação de falência institucional geral, a crise ressuscitou o nacionalismo de extrema-direita com seu discurso de culpabilização do outsider pela condição social adversa. São, em geral, votos de protesto e antiglobalização, causados por uma angústia contra a perda sentida de soberania nacional.

Quanto ao Brexit, uma parcela dos políticos tradicionais britânicos, entre trabalhistas e tories, apoiou a iniciativa. Representou, sem dúvida, uma derrota para a UE e um revés para o então primeiro-ministro David Cameron. O economista mexicano Alfredo Jalife considera que a Grã-Bretanha tradicionalmente fez uma política dúbia de um pé dentro da UE, mantendo uma relação especial com o continente que data desde Churchill, e um pé fora, conservando os laços norte-atlânticos com os Estados Unidos. Diante da crise do euro numa UE liderada pela monetarista Merkel, a ilha tirou seu pé da Europa para colocá-lo na China e na Índia (não por acaso, no mesmo dia em que os britânicos iam para as urnas, a Organização de Cooperação de Xangai, grupo político-militar e econômico eurasiático, aprovou o protocolo de ingresso da Índia e do Paquistão, potências nucleares e membros da Commonwealth). Além de a Bolsa de Londres, centro financeiro mais importante da Europa, poder passar a comercializar o yuan, a capital está prevista como ponto final da nova rota da seda chinesa.

A Ásia, apesar de alguns problemas pontuais, tem dado sinais de maior estabilidade. É certo, por um lado, que a Rússia tem que lidar desde a segunda metade de 2014 com a queda do rublo e a inflação, porém as causas da recessão são bem pontuais, as sanções impostas pelo “Ocidente” desde a anexação da Crimeia como reação ao golpe na Ucrânia e a queda do preço do barril de petróleo em razão da sobreoferta do combustível pela Arábia Saudita. Tratam-se de questões conjunturais. No caso da China, avalia-se que seu crescimento não se sustentará em longo prazo: o país depende da manutenção de excedentes crescentes, mas o mercado interno não consegue gerar demanda suficiente para suas fábricas. A saída de Beijing, porém, tem-se mostrado acertada: compensa nas exportações e no mercado externo esta temporária queda da relação consumo-PIB, enquanto avança com seu XIII Plano Quinquenal (2016-2020), que pretende, entre muitas coisas, dinamizar os campos da tecnologia e da ciência e duplicar a renda da população urbana e rural por meio da ampliação da extensão do sistema de proteção social (a meta é retirar 70 milhões de pessoas da pobreza). As situações mais preocupantes do continente são talvez as advindas das tensões militares. No Japão, o primeiro-ministro Shinzo Abe tem simplesmente ignorado o artigo 9° da Constituição e sua ministra de defesa, Tomomi Inada, tem retomado uma política de nacionalismo militarista abandonada desde 1945, acenando à prática de exercícios militares e à instalação de um sistema de mísseis no Mar da China. E ainda, pela proximidade do arquipélago em relação à península coreana, isso teria um efeito muito negativo para o necessário diálogo entre Seul e Pyongyang em torno da pacificação e reunificação da Coreia. Outro problema a ser considerado é o retorno das tensões na Caxemira: depois de militantes muçulmanos paquistaneses terem atacado uma base indiana em Uri, o país reagiu abrindo fogo, dez dias depois, contra supostos terroristas paquistaneses e o governo Modi tem declarado reiteradamente que Islamabad patrocina o terrorismo. A única solução cabível é política e a Índia tem-se recusado a discutir a questão da Caxemira. Com efeito, a elevação da retórica nacionalista (hinduísta) e belicosa busca reiterar a oposição de Nova Déli ao corredor econômico estabelecido entre China e Paquistão, além de constituir uma cortina de fumaça à queda de investimentos e da oferta de crédito do setor bancário ao produtivo.

De qualquer modo, há elementos sólidos que apontam, por sua vez, ao fortalecimento da Ásia no cenário internacional. De acordo com o FMI, das seis maiores economias por PIB paridade de poder de compra, quatro são asiáticas (China, Índia, Japão e Rússia) e somente duas não (EUA e Alemanha), figurando a China em primeiro lugar com US$19,4 trilhões, os EUA em segundo com US$17,9 trilhões e a Índia em terceiro com quase US$8 trilhões. Desde o final do ano passado, o FMI adicionou o Yuan a sua cesta de moedas e Beijing inaugurou uma instituição financeira que pretende, em médio prazo, rivalizar com o Banco Mundial, o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB, por suas siglas em inglês). A moeda chinesa não tem condições de se internacionalizar de imediato, também em razão de o país manter uma balança comercial superavitária, mas deve-se registrar que há cada vez mais centros de compensação chineses pelo mundo. Além disso, as Filipinas de Rodrigo Duterte declararam uma mudança significativa de política externa, acenando o desejo de resolver a disputa do Mar do sul da China pela via diplomática (e não mais com base no Tribunal de Haia) e declarando como objetivos forjar uma aliança geoeconômica com Beijing e uma militar com Moscou. No caso russo, apesar do golpe na Ucrânia e do enfraquecimento recente do BRICS, o país teve também algumas vitórias recentes: a eleição de candidatos próximos na Moldávia, país que faz fronteira com a hostil Ucrânia de Poroshenko, e na Bulgária, na costa sudoeste do Mar Negro; a quartelada fracassada na Turquia, que reaproximou Erdogan de Putin; e a própria eleição de Donald Trump nos EUA, que defendeu uma política externa mais isolacionaista e de trabalho coordenado com a Rússia no combate ao Estado Islâmico. É importante reforçar que a Turquia é uma relevante potência regional e, banhada pelo Mar Mediterrâneo e pelo Mar Negro, está estrategicamente localizada entre a Ásia e a Europa. Em outubro, no mesmo dia em que o Kremlin anunciou a instalação de uma base naval permanente em Tartus na Síria, Moscou e Ancara firmaram um acordo estratégico de construção de um gasoduto com destino à Europa, evitando assim o uso da estrutura ucraniana para o fornecimento do combustível. Rússia e China mantêm um acordo de abastecimento de gás natural, firmado há dois anos, no valor de US$400 bilhões com previsão de trinta anos de duração. Por fim, é preciso citar o importante acordo nuclear entre o Irã de Rouhani e o grupo dos seis (membros do Conselho de Segurança da ONU e Alemanha) no ano passado, que levantou as sanções econômicas mantidas contra Teerã, permitiu que o país continuasse seu programa nuclear pacífico e instituiu o controle da Agência Internacional de Energia Atômica às instalações nucleares iranianas, arrefecendo as preocupações “ocidentais”.

O Brasil deve estar atento a esta tendência internacional de guinada asiática e pragmaticamente preparar sua política externa para responder satisfatoriamente a este novo momento histórico com uma diplomacia ativa e altiva.

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ReOriente-se: o continente asiático em foco
(parte 1 – artigo dividido em 2 partes)

Vinicius Melleu Cione
*Formado em Relações Internacionais e um dos diretores da Parthenon Consultoria Política.
vinicius@parthenoncp.com.br

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Por Vinicius Melleu Cione*

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(parte 2 – artigo dividido em 2 partes)

O economista e sociólogo alemão André Gunder Frank (1929-2005) no livro ReOrient: Global economy in the Asian Age formula uma crítica ao eurocentrismo presente nas análises sobre economia e política internacionais. A visão eurocêntrica, além de negligenciar grande parte da história política-econômica da humanidade, especialmente a asiática, distorce a experiência do próprio “Ocidente”, impedindo uma apreensão de fato global da realidade.

A ideia de uma “hegemonia europeia” ou “ocidental” é normalmente o pressuposto indiscutível da maioria dos esforços de análise do sistema internacional ignorando que as bases da história moderna foram moldadas por uma economia global que já funcionava muito tempo antes da suposta expansão do sistema europeu a partir das chamadas Grandes Navegações. O dinamismo econômico mundial a partir do século XV, por exemplo, foi iniciado na Ásia e impulsionou um acelerado crescimento populacional, produtivo e comercial por três séculos naquele continente. Com efeito, seria muito difícil para regiões ou países tão pequenos e com estruturas econômicas feudais tão frágeis como a Península Ibérica (século XVI), os Países Baixos (século XVII) ou a Grã-Bretanha (século XVIII) exercerem qualquer liderança político-econômica significativa num cenário internacional há muito protagonizado pelos Estados orientais, como os impérios Qing/Ming (China), Mughal (Índia), Otomanos e Safávidas (persas). Em 1750, a Ásia concentrava 66% da população e produzia 80% da riqueza mundial, enquanto a Europa, com 20% da população, produzia menos dos 20% restantes.

A partir de 1800, o jogo virou; além da ascensão demográfica verificada entre 1750 e 1850 no continente europeu e do crescimento das taxas de produtividade do período, Gunder Frank sugere que “a posição desvantajosa da Europa na economia mundial foi parcialmente compensada por seu acesso privilegiado ao dinheiro da América. Do lado da demanda, o uso de seu dinheiro americano – e só isso – permitiu aos europeus entrarem e logo incrementarem sua quota de participação no mercado mundial, cujos centros dinâmicos estavam na Ásia”. Ele acredita também que a China teria entrado numa “armadilha de um equilíbrio a alto nível”, como avaliou o economista Mark Elvin: a oferta e a demanda estavam bem equilibradas e os métodos de produção e redes de comércio existentes eram tão eficientes e a força de trabalho era tão barata que o investimento em capital para melhorar a eficiência não seria lucrativo.

No final do século XIX, passou-se a projetar a ideia de que a Europa sempre esteve no centro das relações internacionais. Em seu A riqueza das nações, de 1776, Adam Smith disse “a China é um país muito mais rico do que qualquer região da Europa, e a diferença de preço dos gêneros alimentícios, na China e na Europa, é muito grande”. Cerca de cem anos depois, os europeus, imbuídos da mentalidade neocolonial de “fardo do homem branco” e objetivando criar um novo universalismo com base em sua pujança econômica, passaram literalmente a reescrever seu papel histórico no sistema internacional.

Gunder Frank avalia o crescimento ocidental e o refluxo oriental em ciclos e defende que, no século XXI, a tendência seria uma recentralização do sistema mundial na Ásia em torno da liderança chinesa: “o sistema/economia mundial globalmente abarcador não tem um único centro, e sim bem mais uma hierarquia de centros, provavelmente com a China à frente”. Os acontecimentos político-econômicos dos últimos tempos dão cada vez mais razão ao trabalho de Gunder Frank.

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(parte 2 – artigo dividido em 2 partes)

Vinicius Melleu Cione
*Formado em Relações Internacionais e um dos diretores da Parthenon Consultoria Política.
vinicius@parthenoncp.com.br

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