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9 Lições de Liderança do filme ‘Estrelas Além do Tempo’

Octavia, o gênio IBM. Taraji, o gênio matemático e Janelle, a engenheira.

9 Lições de Liderança do filme ‘Estrelas Além do Tempo’ sobre Diversidade e Inclusão no Mercado de Trabalho foi publicado na Revista Forbes, em janeiro de 2017.

Mary Jackson, Katherine Johnson e Dorothy Vaughan

Além de performances grandiosas, essa é uma história de empoderamento, de mulheres negras superando duplas barreiras de raça e gênero. Não só elas triunfaram, como em suas jornadas elas se tornaram heroínas na corrida espacial americana contra a Rússia.

Baseado no livro de Margot Lee Shetterly, historicamente fidedigno, o filme conta a história de 3 mulheres americanas negras no início dos anos 1960, que trabalhavam como matemáticas no Centro Langley de Pesquisas da NASA, em Hampton, Virginia, EUA.

O filme é uma interpretação ficcional do livro. Muitos dos detalhes históricos estão preservados, e retratam eventos que desencadearam o início do colapso das barreiras raciais durante um período crucial do Movimentos pelos Direitos Civis.

O filme é rico em preciosidades que inspiram aqueles que batalham pela diversidade e a inclusão no mercado de trabalho.

Aqui estão as 9 lições do filme que os líderes podem colocar em prática hoje.

1 – Eliminar obstáculos para seus funcionários.

Quando Al Harrison sacou que sua funcionária, a matemática negra Katherine Goble, tinha que caminhar 1/2 hora a cada vez que precisava ir ao banheiro para negros, ele usa um pé-de-cabra para arrebentar a placa que identifica o único banheiro reservado para mulheres negras, e solta a frase “here at NASA we all pee the same color!” Ao fazer isso, ele remove de forma eficaz esse grave obstáculo para facilitar o trabalho de Katherine. E, como frequentemente acontece, ao identificar e consertar o problema para uma pessoa, ele removeu um obstáculo que impactava um grande número de pessoas talentosas.

2 – Lutar para ser mais abrangente para ganhar acesso a um maior banco de talentos.

O envolvimento dos Estados Unidos na 2ª Guerra Mundial criou uma enorme demanda por mão de obra especializada para o setor de Defesa. As mulheres começaram a ser recrutadas na NASA, em 1935, mas em 1943 a necessidade por talentos beirou o desespero. Dois anos antes, o presidente Roosevelt assinou a lei Executive Order 8802, que acabava com a segregação na indústria da defesa. Isso abriu a porta da NASA que passou a incluir mulheres de cor na sua busca por talentos, com resultados espetaculares.

3 – Ousar a ser o “primeiro” a desbravar novos caminhos.

Numa das cenas mais poderosas do filme, Mary Jackson (Janelle Monáe) precisa da permissão de um juiz para frequentar aulas numa escola de engenharia para brancos – numa época em que no estado Virginia a lei da segregação entre brancos e negros ainda dominava. Apesar das monumentais adversidades contra ela, ela pergunta ao juiz: “De todos os casos que o senhor vai ouvir hoje, qual deles fará o senhor ser o primeiro?” Não importa o quanto hercúlea seja a tarefa, você não deveria ter medo de ser o primeiro, e você deveria apoiar aqueles na sua equipe que tem desejos de trilhar novos caminhos.

4 – Pequenos gestos contribuem muito para criar um senso de pertencimento.

Quando a equipe de astronautas visita a NASA, todos os funcionários estão perfilados ao ar livre para cumprimentá-los, com as mulheres negras relegadas lá para o final da fila. Em vez de ignorá-las, o astronauta John Glenn vai até elas para apertar as suas mãos. Esse pequeno gesto deixa uma marca significativa naquelas mulheres e dá a elas um maior senso de inclusão e pertencimento.

5 – Mesmo com as melhores intenções, o preconceito faz os talentos se sentirem indesejados.

Quando o coronel Jim Johnson (representado por Mahershala Ali) tenta ser galanteador com Katherine Goble, fica sabendo que ela é uma matemática, na NASA, diz sem pensar “nossa, eles deixam mulheres fazer este tipo de trabalho?” Bem no meio de um filme que enfatiza discriminação racial, essa pérola de machismo nos mostra como a discriminação pode tomar várias formas.

6 – Quando a gente erra, é importante se desculpar.

O infeliz comentário do coronel Johnson suscita um forte reação da parte de Katherine Goble. Sua fraca tentativa de se desculpar só piora as coisas. Mais tarde, então ele retorna com um sincero pedido de desculpas e finalmente ganha o coração de Katherine. Ainda que seja quase impossível nos livrar de todos os nossos preconceitos inconscientes, estar pronto para reconhecer nossos erros pode ajudar a neutralizar situações potencialmente prejudiciais.

7 – Use seu privilégio para empoderar alguém.

Quase ao final do filme quando o astronauta John Glenn está se preparando para seu voo is histórico, ele pede que Katherine Goble confira todos os cálculos. Porém, ela não se encontra mais trabalhando na equipe do lançamento. O pedido do astronauta catapulta a carreira de Katherine para um papel proeminente. Sem o apoio de Glenn, ela não participaria mais do Space Task Group.

8 – Apoiar os outros é a melhor forma de ajudar você mesmo.

Quando a outra matemática Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) compreende que o novo computador da IBM foi instalado na base, ela começa a aprender por si só como programar. Porém, em vez de guardar o conhecimento para si, ela começa a ensinar todas suas colegas do seu departamento. Ao fazer isso, ela fortalece a sua equipe. Quando os gerentes percebem a necessidade de mão de obra para operar os computadores, sua preparada equipe assume.

9 – Quando focamos em performance, a diversidade emerge naturalmente.

O filme tem uma mensagem muito clara: se é pra atingir o sucesso, nem cor de pele nem gêneros importam. A única coisa que pode fazer a diferença é performance. E é a performance de indivíduos como Katherine Goble, Mary Jackson, Dorothy Vaughan e um sem número de mulheres afro-americanas, que começaram a pavimentar o caminho para maior igualdade no mercado de trabalho. Ou seja, performance é o maior equalizador.

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Nota:
9 lições sobre diversidade e inclusão no mercado de trabalho, artigo da Forbes que traduzi livremente, escrito por Paolo Gaudiano and Ellen Hunt.

Beia Carvalho
*Palestrante futurista

beia@5now.com.br

 

 

 

“Olha ali! Aonde? Ali! Um casal de homem e mulher com 2 filhos!!!”

Beia

Por Beia Carvalho*

Digo nas minhas palestras que em 2030, famílias compostas de 1 homem e 1 mulher e 2 filhos serão ultrapassadas por todo tipo de família: casal (hetero, homo, transexuais) com 1 ou 2, ou sem filhos; famílias com 1 adulto (hetero, homo, trans) com 1 ou 2, ou sem filhos.

São as Novas Famílias, vistas – ao mesmo tempo – como desequilíbrio da sustentabilidade, por pressionarem por mais infraestrutura e serviços; e como propulsoras do consumo, fazendo a roda da economia girar, mesmo em tempos de decadência de natalidade.

Leia mais neste artigo, que traduzi livremente do site da Bloomberg: http://www.bloomberg.com/news/articles/2016-06-22/family-shift-in-china-means-83-million-living-alone-chart

A Virada na Família Chinesa: 83 Milhões Vivendo Sozinhos.

Mais chineses estão vivendo sozinhos por conta do envelhecimento da população, do aumento dos divórcios e jovens mais ricos mudando da casa de seus pais. A Universidade de Cingapura estima que 83 milhões de pessoas estão morando sozinhas, liderados por jovens entre 15 e 34, de acordo com Jean Yeung, diretor do Centro de Pesquisa para Família e População, da universidade.

Lares com uma única pessoa, ou unipessoais, podem chegar a 132 milhões em 2050. A China tinha 66 milhões de lares unipessoais registrados em 2014, ou 15% dos domicílios, comparados com 6% em 1990, de acordo com dados governamentais.

Casal com 2 filhos vai perdendo sua normalidade para outros tipos de família. Domicílios Unipessoais: 83 milhões de chineses

Essas forças estão corroendo a estrutura econômica baseada em unidades familiares que remontam a centenas de anos. Aquelas que Mao Tsé-Tung tentou destruir durante a Revolução Cultural. Onde Mao fracassou, o crescimento econômico vem obtendo sucesso, acelerando a demanda por mais energia, bens de consumo e automóveis e pressão crescente sobre serviços para os mais velhos.

Nicholas Eberstadt, demógrafo do Instituto Americano Enterprise, em Washington: “Pode afetar principalmente a composição e, em algum grau, a qualidade do crescimento na China. Essa é uma parte da transição da China para uma economia impulsionada pelo consumo.”

Fonte Bloomberg:
Family Shift in China Means 83 Million Living Alone: Chart
http://www.bloomberg.com/news/articles/2016-06-22/family-shift-in-china-means-83-million-living-alone-chart
The Lonely Aftermath of China’s One Child Policy
http://www.bloomberg.com/news/articles/2016-06-21/behind-china-s-one-child-policy-is-a-growing-army-living-alone

Beia Carvalho
*Palestrante futurista

beia@5now.com.br

“As ideias e opiniões expostas nos artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores e podem não refletir a opinião do CEOlab”.

Politicamente, nada é correto

Por Beia Carvalho*

politicamente-nada-e-correto

Li um artigo do esloveno Slavoj Zizek na Think Big.

Tive a imediata vontade de traduzi-lo para o meu blog. Bad idea. Por quê? Ah, Zizek não é nada fácil de ser traduzido. Só que o assunto me atrai demais: a correção política sempre me incomodou. Mas não tenho os recursos para expressar meus incômodos. Tenho, sim, uma intuitiva sensação de que o “politicamente correto” cheira mal, esconde algo sobre o tapete; é prepotente. E, como Zizek brilhantemente conclui em seu artigo, uma forma arrogante de nos colocarmos acima do outro.

Como eu disse, não é um assunto fácil, e o estilo do professor escrever tampouco me ajudou. Sou teimosa e fiz uma tradução livre. Queria que mais pessoas tivessem acesso a este tema tão contemporâneo. Ainda que bem mais acentuado nos Estados Unidos – o que num mundo globalizado nos afeta diretamente. Quando cheguei ao final da tradução, achei o artigo ainda mais relevante para a audiência do blog do CEOlab.

Deixo, ao final, um link para um de seus vídeos – uma verdadeira aula sobre o destino da democracia e do capitalismo –, que dá conta para o leitor de seus peculiares trejeitos e sua inquieta personalidade. É um filósofo-personagem! Talvez seja interessante assistir primeiro a uma parte do vídeo para conhecê-lo, ou revê-lo, se você já é fã. Fica a dica. Bom proveito!

Slavoj Žižek: Correção Política é a Forma Mais Perigosa de Totalitarismo

É claro que eu não tenho nada contra o fato de seu chefe lhe tratar bem. O problema é se essa atitude não apenas encobre uma real relação de poder, como a faz ainda mais impenetrável. Você distingue muito bem o chefe antiquado, que grita com você e exerce plenamente sua brutal autoridade. De certo modo, é muito mais fácil se rebelar contra esse tipo do que o chefinho super bacana, que acolhe você e quer saber como foi o encontro de ontem à noite, blah, blah, e toda aquela conversa fiada. Nesse caso, fica quase indelicado protestar!

Vou contar uma velha história, que sempre uso para exemplificar claramente o meu ponto de vista. Imagine você ou eu; eu sou uma criança. É domingo à tarde. Meu pai quer que eu vá visitar minha avó. Vamos dizer que meu pai seja um tipo autoritário. Como ele agiria? Provavelmente, diria algo assim: “Tô me lixando para o que você acha; é seu dever visitar a sua avó e seja educado com ela e blah, blah.” Não vejo nada de errado nesse sermão, porque eu ainda não tenho espaço para me rebelar. É uma ordem clara.

Mas como seria o papo do pai pós-moderno-não-autoritário?

Eu sei porque vivi isso. O outro pai pegaria esse caminho: “Você sabe o quanto a sua avó te ama, mas não estou te forçando a ir visitá-la. Você deveria ir só se quiser mesmo.” Aí, toda criança aprende que, por trás de uma aparente livre escolha, há uma pressão muito maior na 2ª mensagem. Porque basicamente seu pai não está apenas dizendo que você deveria visitar a sua avó, mas que você deveria adorar isso. Seu pai está falando como você deve se sentir. É uma ordem muito mais forte que a anterior. E isso, para mim, é quase um paradigma da moderna e permissiva autoridade. É por isso que a fórmula do autoritarismo não é a de “não quero saber o que você pensa, é pra fazer!”. Esse é o autoritarismo tradicional. A fórmula totalitária é “eu sei melhor o que você realmente quer e, pode parecer que estou forçando, mas estou apenas lhe mostrando o que você – mesmo sem saber – quer realmente fazer. Portanto, nesse sentido, fico horrorizado. E há um outro aspecto dessa nova cultura, na qual uma ordem é apresentada somente como um enunciado neutro.

Tenho um outro exemplo que gosto muito, e não vamos nos equivocar. Eu não fumo e sou a favor da punição da indústria do fumo e por aí vai. Mas sou super desconfiado em relação a nossa fobia sobre o ato de fumar. E não estou convencido que ela seja justificada apenas no conhecimento científico sobre os males que o cigarro nos causa. Meu primeiro problema é que a maior parte das pessoas contra o fumo são, geralmente, a favor da liberação da maconha etc. Mas meu problema básico é um só. Veja isso, agora eles acharam uma meia solução, os e-cigarettes ou cigarros eletrônicos. E acabo de descobrir que as maiores empresas aéreas americanas decidiram proibi-los. É interessante saber por quê. A razão não é tanto pela dúvida de que são benéficos ou não. Basicamente, eles o são. Mas a ideia é que, se você está fumando um e-cigarette durante um voo, está publicamente exibindo seu vício e isso não é um bom exemplo pedagógico para os outros, para a sociedade.

Acredito que esse seja um claro exemplo de como algumas éticas, que não são éticas de saúde neutras, mas basicamente penso que é uma ética do tipo “não tenha um comportamento apaixonado”. Fique a uma distância apropriada, controle-se. E, agora, vou chocar você. Eu penso que até o racismo pode ser ambíguo. Uma vez fiz uma entrevista em que eu perguntava como a gente encontra o racismo ultraconservador. Você já sabe a minha resposta. Com o racismo progressivo. Então, ah, ah, o que eu quero dizer? Lógico que não quero dizer racismo. O que quero dizer é o seguinte: sim, claro que as piadas racistas e outras atitudes podem ser extremamente opressivas, humilhantes, e daí por diante. Mas penso que a solução seja criar um clima ou praticar essas piadas de um jeito que elas realmente funcionem como aquela partezinha de obscenidade que serve para estabelecer uma proximidade verdadeira entre nós. E falo isso a partir da minha própria experiência política passada.

Ex-Iugoslávia. Eu me lembro quando era jovem e encontrava pessoas das outras ex-repúblicas iugoslavas – sérvios, croatas, bósnios. A gente passava o tempo todo contando piadas sujas uns sobre os outros. Não tanto contra o outro. Estávamos, de um jeito maravilhoso, competindo com quem conseguiria contar a mais indecente das piadas sobre nós. Essas eram piadas obscenas e racistas, mas o seu efeito era um surpreendente senso de obscena solidariedade compartilhada.

E eu tenho uma outra prova aqui. Você sabia que quando a Guerra Civil eclodiu na Iugoslávia, no começo do anos 1990, e mesmo antes com as tensões éticas de 1980, as primeiras vítimas foram exatamente essas piadas: elas desapareceram imediatamente. Por exemplo, digamos que você vá visitar um outro país. Eu detesto essa coisa do politicamente correto, do tipo, ah, de que comida vocês gostam, quais são as suas expressões de cultura. Eu, não; peço que me contem uma piada racista sobre si e seremos amigos. Dá certo. Pois é, veja essa ambiguidade – esse é o meu problema com o politicamente correto. Não é uma forma de autodisciplina, que permite superar o racismo. É somente um racismo oprimido e controlado. É a mesma coisa por aqui. Vou contar uma maravilhosa história, muito simples. Aconteceu comigo há um ano, bem aqui na livraria da esquina. Eu estava assinando um dos meus livros. Dois homens negros chegam, afro-americanos; não gosto do termo “correto”. Meus amigos negros também não, porque, por razões óbvias, pode ser até mais racista.

O ponto é que eles me pediram para assinar o livro, e os vendo ali eu não pude resistir e fazer um comentário racista. Quando estava retornando os livros a eles, eu disse: “sabe, eu não sei qual dos livros é pra quem, porque vocês negros, como os amarelos, parecem todos iguais.” Eles me abraçaram e disseram, você pode nos chamar de negão (nigga). E quando isso acontece, significa que estamos juntos, na mesma sintonia. Eles sacaram no ato.

Outro problema que tive numa palestra foi com um jovem surdo-mudo que pediu por um tradutor. E não pude resistir. No meio da palestra, diante de umas 200-300 pessoas, eu disse: “o que vocês estão fazendo aí, garotos?” Minha ideia era mostrar que, ao olhar os gestos do tradutor, parecia que ele estava passando mensagens obscenas. O surdo-mudo morreu de rir e ficamos amigos. E uma ridícula repórter me denunciou por fazer piadas com um deficiente. Era como se ela não tivesse visto que havíamos nos tornado amigos. Mas eu sou… espere um minuto. Eu não sou um idiota. Sei perfeitamente bem que isso não significa que nós deveríamos andar por aí humilhando uns aos outros. Fazer isso é uma grande arte. Digo apenas que esta é a minha hipótese. Sem a troca de uma pequena dose de amigáveis obscenidades você não estabelece um contato real com o outro.

Fica aquele respeito frio, sabe? Nós precisamos estabelecer um contato real. Pra mim, é disso que o politicamente correto carece. E a coisa chega a um ponto que fica tão louca como uma piada. Eu confirmei com um amigo australiano. Sabe o que aconteceu em Perth, na Austrália. Não é uma piada, repito. Proibiram o teatro municipal de encenar Carmen. A ópera Carmen, sabe por quê? Porque o 1º ato acontece em uma fábrica de tabaco. Não estou brincando. Só estou dizendo que há algo muito falso sobre a correção. Sei que é melhor que um racismo aberto, lógico. Mas me pergunto se funciona, porque eu, por exemplo, nunca entrei nessa onda de fazer as substituições permanentes no vocabulário. Negões são negros. Negros são pretos. OK, pretos são afro-americanos. Talvez – acho que eles que deveriam decidir. A única coisa que sei é que quando estava em Missoula, no estado de Montana, me envolvi numa conversa de amigos com alguns americanos nativos. Eles odiavam o termo e me deram uma razão maravilhosa: “nós americanos nativos, eles americanos cultos.” E daí, somos parte da natureza. Eles me disseram que preferiam ser chamados de índios.

“Pelo menos nosso nome é um monumento à estupidez do homem branco”, que pensaram que eles estavam na Índia, quando chegaram na América. Ah, que insight eles tiveram sobre essa bobagem da Nova Era, sabe. Nós, os brancos, exploramos a natureza tecnologicamente enquanto os nativos dialogaram com a natureza, eles pediriam à montanha permissão para mineração blah, blah. Não é verdade. Pesquisas nos mostram que os nativos, os índios, mataram mais búfalos e queimaram muito mais florestas que os brancos. Você sabe por que esse é o ponto correto. A coisa mais racista é, arrogantemente, nos elevar em relação àquele jeito primitivo, orgânico, de viver em harmonia com a Mãe Natureza. Não, eles têm o direito fundamental de ser maus também. Se nós podemos ser maus, porque eles não poderiam? Por fim, repito, mesmo se tratando de racismo, temos que ser muito precisos para não lutar contra o preconceito de um modo que, eventualmente, reproduza as condições para o racismo.

SLAVOJ ŽIŽEK
Slavoj Žižek é um filósofo esloveno e um crítico cultural. É professor da European Graduate School, diretor internacional do Instituto Birkbeck para as Humanidades, no Birkbeck College, University of London, e pesquisador sênior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Eslovênia. Entre seus livros, Living in the End Times, First as Tragedy, Then as Farce, In Defense of Lost Causes, 4 volumes do Essential Žižek, e Event: A Philosophical Journey Through a Concept.

Vídeo “Capitalismo e Democracia estão destinados a se divorciar”

Artigo original

*Palestrante futurista
beia@5now.com.br

O Líder do Futuro e a Competitividade Sustentável

Por Pedro Lins*

Como desenvolver uma nova geração de líderes preocupada com a Competitividade Sustentável?

 Image courtesy of Suwit Ritjaroon at FreeDigitalPhotos.net

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Desde a concepção do termo “Desenvolvimento Sustentável”, no documento intitulado Nosso Futuro Comum, publicado em 1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, as empresas, as organizações da sociedade civil e os governos iniciaram um extenso debate. Conhecido como Relatório de Brundtland, incitou questões como “realizar o desenvolvimento que procura satisfazer nossas necessidades atuais, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”.

Esses debates quase sempre são focados em: “O que fazer”; “Por que fazer”; e “Como fazer”. Mas muito pouco é abordado sobre “Quem fará” e “Para que fazer”.

Uma das primeiras considerações que me vêm à cabeça é: “Para que os líderes do futuro devem se preocupar com o Desenvolvimento Sustentável, ou melhor, com a Competitividade Sustentável?” A resposta é muito simples: porque serão eles que viverão no futuro.

Infelizmente, ainda não conseguimos conscientizar esta nova geração de líderes sobre seu papel no desenvolvimento e na competitividade sustentável das empresas e organizações. Pois o que eles ainda aprendem, na maioria das escolas de administração, é basicamente desenvolver seus negócios com foco apenas no retorno financeiro que seus empreendimentos devem ter, considerando a competitividade como o grande propulsor do crescimento. E o lucro é seu único botton line.

Dessa maneira, é de fundamental importância que as escolas, as empresas e os governos motivem, engajem e comprometam esta nova geração de líderes a tomarem o conceito de Competitividade Sustentável como a base para um futuro sustentável.

A Competitividade Sustentável é o compromisso das empresas em gerenciar e melhorar o seu resultado Econômico, o seu Impacto Ambiental, as Implicações Sociais e a Salvaguarda Cultural de suas atividades em âmbito empresarial, local, regional e global. Dessa forma, possibilita que pessoas, empresas e nações, agora e no futuro, atinjam um grau de desenvolvimento social, ambiental, econômico e cultural. Podem, assim, dispor ao mesmo tempo do uso sustentável de seus recursos naturais, humanos e financeiros aos quais têm acesso, sem impossibilitar que gerações futuras utilizem esses mesmos recursos; a base do desenvolvimento sustentável.

Neste ponto, trabalho com um grupo de profissionais, que busca conscientizar a nova geração de líderes sobre o seu papel no futuro do Planeta. Como estrutura, utilizamos a evolução sobre os conceitos, partindo da Caridade até a Competitividade Sustentável. Um dos principais programas visa a proporcionar que Líderes do Futuro possam vivenciar o que é desenvolver um negócio competitivo e sustentável.

Assim, há nove anos desenvolvi o “Brazilian Field Seminar – BFS” em parceria com a professora Kristen McCormack da Boston University (BU). É uma experiência ao vivo, no qual, durante duas semanas, 20 alunos do MBA da BU fazem uma viagem pelo Brasil, para conhecer e estudar diferentes perspectivas de como fazer negócios nos três setores (público, privado e social). No BFS, eles visitam, em média, 20 empresas dos três setores, e têm a oportunidade de utilizar seus conhecimentos para avaliar diferentes maneiras de fazer negócios competitivos e sustentáveis. Todo ano o time é muito heterogêneo, com alunos de vários países e interesses. A diversidade permite a esses jovens líderes conviver intensamente com outros tipos de pensamentos e perspectivas.

Acreditamos que, ao dar uma oportunidade de viver outras realidades, culturas e maneiras de fazer negócios, os alunos podem e aprimoram suas próprias formas de pensar. Além de considerar o quadriple botton line, a base da Competitividade Sustentável.

Dentre dezenas de experiências, desde vários trabalhos desenvolvidos pelos jovens na colaboração de projetos sociais, ambientais, culturais e econômicos no Brasil, dois casos foram marcantes. Um aluno de um país do leste europeu, herdeiro de um banco, ao final da viagem ao Brasil, me confidenciou a transformação da sua visão de negócio – já que ele nunca havia entrado em uma favela, sem imaginar a maneira como aqueles empreendedores tocavam seus negócios, em um ambiente tão desfavorável. Dessa maneira, ele decidiu reiniciar sua carreira no banco da família, com uma nova perspectiva no desenvolvimento do negócio, que seria focado não somente no economic bottom line, mas na Competitividade Sustentável.

O segundo foi um aluno que, na época, tinha 49 anos e era capitão da Polícia de Boston, com mais de 200 oficiais sob o seu comando. Apesar de nunca ter feito uma viagem ao exterior, esse policial conheceu uma realidade inédita e, a partir dela, criou um novo approach, mais humano e respeitoso, em relação aos habitantes ilegais da sua área de jurisdição. O que, segundo ele, melhorou muito o relacionamento entre autoridade e sociedade.

Acredito que a educação vivencial seja a melhor forma de oferecer aos futuros líderes a oportunidade de desenvolver seus conhecimentos, contribuir para a formação de seu caráter, sua ética e sua honestidade. Assim, quando assumirem seus papéis à frente de empresas, organizações e governos, eles estenderão seu objetivo para o bem da humanidade, em vez de unicamente visar ao resultado financeiro.

*Pedro Lins é consultor em Competitividade Sustentável/Sustentabilidade, CEO – FIX-CS e professor Associado da FDC
pedrolins@fix-cs.com

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