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Crise na Península Arábica: a ruptura com o Catar

Por Vinicius Melleu Cione*

No dia 05 de junho, o mundo assistiu surpreso à ruptura das relações diplomáticas por parte de quatro países árabes − Arábia Saudita, Bahrein, Egito e Emirados Árabes Unidos (E.A.U.) − com o Catar, sob o pretexto de que a monarquia “apoia organizações terroristas” e contra sua alegada proximidade com o Irã. No dia 23, este grupo, ao qual se somaram Líbia, Iêmen e Maldivas, enviou uma lista contendo treze ações que Doha deveria cumprir no prazo de dez dias para que as negociações fossem retomadas, prontamente rechaçadas pelo regime catariano por constituírem uma violação de sua soberania.

A surpresa se dá principalmente porque os países em questão não têm grandes divergências políticas, conformando inclusive várias organizações em conjunto, como o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), a Liga Árabe e a OPEP.

O fato de a ruptura ter-se produzido sem qualquer provocação pela parte catariana e de forma tão repentina, sem prévias advertências, sugere que o afastamento diplomático já estava sendo premeditado e muitos analistas o têm relacionado à visita do presidente Donald Trump à Arábia Saudita entre os dias 20 e 22 de maio.

Cabe enfatizar a liderança da Arábia Saudita neste bloco anti-Catar, uma vez que se trata de uma potência regional fortemente militarizada, o maior país árabe da Ásia, o principal exportador mundial de petróleo e o detentor da segunda maior reserva de petróleo e a sexta maior reserva de gás natural do mundo.

Ainda que não tenham a mesma força que a monarquia saudita, o Egito e os E.A.U. também merecem um destaque: o primeiro por contar com a maior população do mundo árabe, uma economia diversificada e o estratégico Canal de Suez e o último por ser um dos países mais ricos do mundo (em PIB per capita), ter um IDH considerado “muito elevado”, além de uma pujante economia baseada em turismo, construção civil e combustíveis fósseis, com a sexta maior reserva de petróleo do mundo.

O Catar, por sua vez, tem o segundo maior PIB per capita do mundo, é o principal produtor de gás natural liquefeito e compartilha um vasto território subaquático com o Irã. O país mantém também uma política internacional mais independente de injunções externas e, em certo sentido, mais pragmática, articulando com grupos que os outros governos da região evitam dialogar, mas que constituem inegavelmente atores importantes no cenário local, como a Irmandade Muçulmana egípcia, o Hamas palestino e militantes xiitas do Iraque. Por fim, é de fundamental importância a rede de telecomunicações Al Jazeera, que, em muitos temas, alcançou um nível de liberdade de expressão rara entre as submissas emissoras dos outros países da região.

O afastamento tem consistido até agora na expulsão de cidadãos catarianos, num pesado embargo econômico e na imposição de um bloqueio aéreo, marítimo e terrestre a um país que tem a Arábia Saudita como único vizinho em sua fronteira por terra. É importante ressaltar este “até agora”, pois, dependendo da duração do bloqueio diplomático, Doha poderia ainda se retirar dos blocos de integração regionais e em último caso − como uma hipótese bem remota dadas as severas implicações para a economia política internacional − seria possível até que a tensão escalasse para um embate militar.

O Egito aliás mantém uma postura ainda indefinida quanto ao Canal de Suez, pois permitiu a passagem de um navio com uma carga considerável de gás natural catariano com destino à Espanha no dia 09, mas barrou outro no dia 14 que se dirigia à Inglaterra, obrigando-o a refazer a rota pelo Cabo da Boa Esperança (o dobro do percurso previamente planejado).

No caso dos Estados Unidos, sua posição no conflito é ambígua. É muito provável que a Arábia Saudita esteja agindo em coordenação com a grande potência, ainda mais diante da proposta de uma “OTAN árabe” − a ser liderada pelos próprios sauditas e contrapondo-se principalmente ao Irã − anunciada no momento da visita do representante dos EUA ao país.

É significativo ainda o fato de o presidente Trump ter escolhido Riad como seu primeiro destino internacional. Os tweets que postou pouco depois da eclosão da crise diplomática, endossando as críticas ao Catar, indicam uma forte inclinação da política externa da grande potência a favor da ação saudita.

Por outro lado, pode ser que o presidente dos EUA tenha sido “forçado” a aceitar tal atitude, devido à força do lobby saudita em Washington e à sólida estrutura político-militar do país na Península Arábica. Deve-se recordar que os Estados Unidos mantêm boas relações com todos os países envolvidos e a base militar de Al Udeid, no Catar, é importante em suas operações no teatro de guerra sírio.

Outro indício desta ambiguidade está na operação de venda de armas ao Catar durante esta crise, o que configura uma suposta “contradição” diplomática.

No dia 14, os ministros da Defesa dos EUA, Jim Mattis, e do Catar, Khalid Al Attiyah, firmaram um acordo de US$12 bilhões pelo qual o país árabe comprava 36 aviões F-15 da superpotência. Além disso, no mesmo dia, dois navios de guerra dos EUA chegaram a Doha para um exercício militar conjunto com a marinha de guerra catariana.

Impôs-se, então, outro problema. O presidente Donald Trump, seis dias antes, denunciara o Catar como “patrocinador do terrorismo em alto nível”. Porém, ao vender aviões de guerra para os catarianos e realizar tais exercícios militares, a potência se colocou numa posição de apoio a um país que, como ela mesma reconhece, patrocina terroristas.

Na realidade, a questão de fundo não está no “apoio ao terrorismo”.

Como expôs o jornalista britânico Patrick Cockburn em seu A origem do Estado Islâmico, “a importância da Arábia Saudita na ascensão e retorno da Al-Qaeda é frequentemente mal compreendida e avaliada. O país é influente porque suas vastas reservas de óleo e riqueza o tornam poderoso no Oriente Médio e além. Contudo, não são apenas os recursos financeiros que o transformam em ator tão importante. Outro fator é seu papel na propagação do wahabismo, a versão fundamentalista do Islã, nascida no século XVIII, que impõe a lei da sharia, relega as mulheres ao papel de cidadãs de segunda classe e enxerga os xiitas e sufistas como não muçulmanos, que devem ser tão perseguidos quanto cristãos e judeus”. Ou seja, a acusação feita a Doha poderia igualmente ser feita a Riad − e talvez até com mais veemência.

É evidente que isso não implica dizer que o Catar não patrocine grupos terroristas, mas a acusação exclusiva a este país deve ser questionada.

Com efeito, o que está em jogo são as articulações político-militares locais e a disputa direta entre Doha e Riad por maior projeção.

Em termos político-diplomáticos, o diálogo do Catar com grupos como o Hamas e a Irmandade Muçulmana levaram a que Israel e Egito apoiassem prontamente a ruptura liderada pelos sauditas. O Bahrein, país de maioria xiita governado desde o século XVIII pela família sunita Al-Khalifa, acusou Doha de “incitação mediática, apoio a atividades terroristas e financiamento de grupos ligados ao Irã para sabotagem do país”. Ao mesmo tempo, Irã e Turquia têm sido, ao lado do Paquistão e de Omã, os grandes apoiadores do Catar.

Logo em seguida ao bloqueio ter sido estabelecido, por exemplo, as mídias sociais mostraram a corrida dos catarianos aos supermercados para compra e estocagem de água e comida, já que 40% dos alimentos consumidos no país vêm pela fronteira saudita. O Irã rapidamente se ofereceu para suprir estas necessidades alimentares, sendo em seguida secundado por Omã, e a Turquia, por sua vez, reafirmou sua aliança militar com o Catar e enviou uma tropa de 5.000 pessoas ao país.

A lista de 13 medidas recentemente enviada pelo bloco anti-Catar revela as motivações reais desta pressão diplomática. As principais exigências são: o fechamento imediato da rede Al Jazeera, entre outras emissoras catarianas; o completo afastamento político-diplomático em relação ao governo do Irã e de organizações terroristas; o fim da cooperação militar com a Turquia; a revogação da cidadania catariana de pessoas que tenham violado as leis dos quatro principais países do grupo, além da pronta entrega destes indivíduos aos seus respectivos governos; e a bizarra demanda de auditar o país sistematicamente durante a próxima década.

O Catar é um país muito importante para ser simplesmente afastado da esfera política no Golfo, mas, mesmo que as partes envolvidas cheguem enfim a um acordo e ocorra uma gradual distensão, a tendência será oposta à almejada atualmente pela Arábia Saudita. É bem provável que Doha preferirá diversificar suas alianças e parcerias a depender dos chamados “aliados tradicionais” que a qualquer momento podem lhe impor um forte bloqueio e, em seguida, a proposição de uma série de exigências draconianas para a retomada do diálogo.

A política saudita de pressão e humilhação ao Catar poderá ter como principal efeito o aguçamento da desconfiança deste país e a consolidação crescente de uma heterodoxa parceria Catar-Turquia-Irã e, eventualmente, Rússia, algo que iria completamente de encontro aos interesses de Riad.

Vinicius Melleu Cione
*Formado em Relações Internacionais e um dos diretores da Parthenon Consultoria Política.
vinicius@parthenoncp.com.br

Eleições na França: Macron e Le Pen disputarão o segundo turno

Por Vinicius Melleu Cione*

No domingo, dia 23, os franceses foram às urnas para decidir quem ocupará o Palácio do Eliseu pelos próximos cinco anos. Os dois candidatos mais votados foram o liberal-centrista Emmanuel Macron do partido Em marcha!, com 24,01%, e a candidata da ultradireitista Frente Nacional Marine Le Pen, com 21,3%, o que indica que a disputa irá para o segundo turno, a ser realizado no dia 07 de maio. A participação foi de 78,23%, ligeiramente inferior à registrada em 2012.

A França é uma República semipresidencialista, na qual se elege diretamente um chefe de Estado mediante o voto popular e este escolhe a direção do governo, o primeiro-ministro, posto que deve refletir a composição de forças dominante na Assembleia Nacional.

Durante a campanha, apesar de onze candidatos terem se apresentado, as pesquisas de intenção de voto indicavam como os quatro principais, além de Macron e Le Pen, o conservador François Fillon, de Os Republicanos, que acabou com 20% e o líder do partido de esquerda França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, que conseguiu 19,58% dos votos. O Partido Socialista, uma força política tradicional no país e grupo a que pertence o atual presidente François Hollande, conseguiu apenas 6,36% dos votos. Aliás, pela primeira vez na história da Quinta República francesa, os dois principais partidos políticos (republicanos e socialistas) estão fora do segundo turno.

Uma pesquisa divulgada no dia 20 pela Gallup indicou ainda que 43% dos cidadãos franceses não tinham mais confiança em seu governo e não tinham muitas esperanças para o futuro, percentagem bem superior a de 28% registrada nas eleições de 2012[1]. Entre os insatisfeitos, havia uma tendência maior a sentimentos anti-establishment e um rechaço não só em relação ao sistema político-eleitoral e financeiro, como também a toda a União Europeia. De acordo com a pesquisa, as bases para a insatisfação não eram necessariamente econômicas − quando perguntados sobre falta de recursos para comida ou habitação, “descontentes” e “satisfeitos” apresentavam porcentagens parecidas (12% e 10% no caso de comida, por exemplo). Entretanto, a diferença aumentava quando os dois grupos eram questionados quanto à percepção sobre seu padrão de vida: 26% dos primeiros não se sentiam contra 17% dos últimos.

Como aponta a Gallup, ainda que não exista uma carência de recursos, devido ao sólido sistema de segurança social promovido pelo Estado-providência francês, isso não implica que o país esteja passando por uma boa fase econômica.

Com efeito, as taxas de desemprego têm se revelado dramáticas desde a crise de 2008: em fevereiro deste ano, foi registrada uma cifra de 10%, que afeta de forma mais sensível (23,6%) a população com menos de 25 anos de idade[2].

O crescimento foi de 0,3% em 2016, a dívida do governo em relação ao PIB subiu de 68,1% em 2008 para 96% no ano passado e o país apresenta uma balança comercial deficitária (o último índice foi de -6,57 bilhões em fevereiro)[3].

A França vive uma desindustrialização acelerada (entre 2008 e 2016, 500 mil empregos na indústria foram destruídos), enquanto vê a outra grande potência da zona do euro, a Alemanha, num processo de franca ascensão. A participação da indústria no PIB do país caiu de 16,6% no ano 2000 para 12,4% em 2014. Embora grande parte desta queda deva ser explicada pelo crescimento verificado pelo setor terciário em todas as economias nacionais com o advento da terceira fase da Revolução científico-técnica, a maior parte da indústria no país tem sido impulsionada pela atividade agro-alimentar, o que indica uma preocupante primarização[4]. Em 2015, a França foi responsável por 11% dos produtos industrializados que circularam na União Europeia, situando-se em terceiro lugar no setor, depois de Alemanha, com 20% e Itália, com 13%.

A crise vivida pelo país dá elementos para entender a projeção de representantes e partidos não alinhados à chamada “política tradicional”: ainda que apoiado pelo setor das finanças, Macron lidera um movimento que se coloca contra o bipartidarismo no país e com um discurso de terceira via e Le Pen, por sua vez, propõe um “resgate da soberania francesa” com base num discurso refratário à União Européia e com fortes traços xenofóbicos.

Como já pontuado no texto “Reoriente-se: a retomada da ascensão asiática”, há uma estreita ligação entre a crise, a extrema direita e a retórica da antipolítica: “a crise econômica de 2008 atingiu diretamente as economias mais industrializadas e como afirma o ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis em seu O minotauro global, ‘o governo permitiu que o serviçal mais forte e grotesco do Minotauro Global tivesse um retorno poderoso após a queda da besta. Foi apenas um movimento dentre muitos que os políticos fizeram ao longo de um caminho que, ironicamente, levou-os ao seu próprio desempoderamento. Ao fortalecer o lado dos bancos falidos, eles privaram-se de qualquer possibilidade para a elaboração de políticas eficazes. Com os poderes de Wall Street restaurados, a política perdeu sua capacidade de conter o avanço da Crise’. Nos países ocidentais, tal restauração do poder da banca, facilitada por representantes dos mais variados matizes políticos, foi interpretada como fraqueza e traição pelo eleitorado. Ao mesmo tempo em que generalizou a apatia política e a sensação de falência institucional geral, a crise ressuscitou o nacionalismo de extrema-direita com seu discurso de culpabilização do outsider pela condição social adversa. São, em geral, votos de protesto e antiglobalização, causados por uma angústia contra a perda sentida de soberania nacional”.

Diversas forças políticas dentro e fora da França declararam seu apoio ao jovem candidato, entre elas se destacam o atual presidente François Hollande, o secretário geral do Partido Socialista, Jean-Christophe Cambadélis (quem afirmou se tratar de uma decisão unânime do bureau nacional do partido), o ex-candidato conservador François Fillon de Os Republicanos e o comissário europeu de Assuntos Econômicos Pierre Moscovici. Apesar de a empresa de pesquisa Opinionway indicar uma vitória fácil do ex-ministro da Economia contra a candidata da Frente Nacional por 61% a 38%, a eurofobia de Le Pen preocupa muitos políticos do continente, ainda mais num contexto de questionamento do bloco regional pós-Brexit.

As eleições na França têm, portanto, uma grande importância política. Está em jogo não somente o futuro do país, como também de toda a União Europeia, já que um eventual Frexit (saída francesa do bloco sinalizada por Marine Le Pen) desestabilizaria por completo o mercado comum. Como indicado pelas pesquisas, Le Pen pode até não vencer a disputa, mas o fato de um partido de extrema direita e anti-UE ter chegado ao segundo turno de um país tão central como a França indica que a crise político-econômica na Europa ainda está longe de seu fim.


[1] De acordo com o site http://www.gallup.com/poll/208781/france-primed-populist-wave-ahead-election.aspx, consultado a 23/04.
[2] De acordo com o site http://countryeconomy.com/unemployment/france, consultado a 23/04.
[3] De acordo com o site http://www.tradingeconomics.com/france/indicators, consultado a 23/04.
[4] De acordo com o site http://www.gouvernement.fr/partage/3813-l-industrie-en-france, consultado a 23/04.

Vinicius Melleu Cione
*Formado em Relações Internacionais e um dos diretores da Parthenon Consultoria Política.
vinicius@parthenoncp.com.br

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Hillary X Trump: duas perspectivas para a política externa dos EUA

trump-hillaryPor Vinicius Melleu Cione*

Em seu livro Diplomacia, o ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger apresenta uma importante reflexão sobre a política externa da grande potência ao longo do século XX. De início, já destaca os dois presidentes que puseram fim à política “isolacionista” que caracterizou o país até o início do século: Theodore Roosevelt (1901-1909) e Woodrow Wilson (1912-1921). Curiosamente, seguiriam perspectivas diplomáticas diametralmente opostas: enquanto o primeiro partiria de uma abordagem mais realista de cálculo dos interesses políticos estadunidenses e equilíbrio de poderes entre as grandes potências, o último desenvolveria uma visão mais idealista, com base na propagação da democracia como garantia da paz.

De acordo com Kissinger, quando os Estados Unidos nasceram como um Estado independente, pretendiam apenas se consolidar internamente e aumentar suas fronteiras com a “marcha para o Oeste”. Adotaram, assim, uma política externa neutra em relação à Europa, tanto na época das guerras da Revolução Francesa, quanto no avanço napoleônico. O novo país contava com uma vantagem geopolítica: estava afastado da Europa pelo Oceano Atlântico, o que permitia a George Washington evitar alianças (artificiais) estratégicas. Tal distanciamento dos países europeus, tidos como calculistas egoístas que queriam apenas preservar sua posição no sistema internacional, combinado com o mito fundador de que os EUA eram um país excepcional com o povo escolhido, estimulou a consideração de que suas instituições democráticas eram responsáveis pela natureza pacífica de seus cidadãos e, por serem tão afortunados de contarem com valores tão superiores, deveriam propagar seus ideais pelo exemplo. A Doutrina Monroe foi desenvolvida com base nesta perspectiva: advertia os países europeus a se manterem distantes da América e estabelecia o continente inteiro como assunto daquele país. O país poderia, portanto, utilizar seu poder para ter predominância, como o fez em seus avanços contra os indígenas e contra o México, uma vez que não se tratava de política externa, mas da “expansão de valores justos”.

Roosevelt e o realismo político
Com Theodore Roosevelt, o que era propagado pelo exemplo, passou a sê-lo pela intervenção. O colapso gradual do sistema internacional centrado na Europa e a expansão do poder político-econômico dos Estados Unidos tornaram Roosevelt, nas palavras de Kissinger, “o primeiro presidente a pregar a obrigação americana de fazer sua influência sentida globalmente, e a relacionar os EUA com mundo em termos de um conceito de interesse nacional. (…) Se seus interesses colidiam com os de outros países, tinham a obrigação de valer-se da sua força para triunfar”. Foi com esta perspectiva que “deu vida” a seu famoso Corolário: o direito geral de intervenção como “um poder policial internacional” que o país poderia exercer no continente americano. Em 1902, forçou o Haiti a pagar suas dívidas com bancos mundiais; em 1903, apoiou a independência do Panamá em relação à Colômbia, recebendo como pagamento o Canal; em 1905, transformou a República Dominicana num protetorado econômico; e, em 1906, interveio na insurreição contra o primeiro presidente cubano Tomás Estrada Palma, instalando um governo provisório. Roosevelt foi o primeiro (e, de acordo com Kissinger, o único) a compreender a posição estadunidense pela óptica do interesse nacional, das “esferas de influência” e do equilíbrio de poderes (talvez Richard Nixon tenha sido quem mais se aproximou desta perspectiva). A garantia de que a comunidade internacional ou o direito resguardariam os assuntos nacionais não era sólida em sua interpretação. Sua defesa à teoria da sobrevivência do mais apto, tirada do darwinismo social em voga no momento, em um contexto internacional regulado pelo poder não foi capaz de persuadir seus conterrâneos. Quando eclodiu a Primeira Grande Guerra, Roosevelt alegou, numa carta a Kipling, que a visão limitada de seu povo o impediria de influenciar na disputa europeia. Seria um presidente contrário à análise de balança de poderes, entretanto, quem levaria os Estados Unidos a participarem da disputa mundial.

Wilson e o idealismo político
Woodrow Wilson, captando a convicção permanente do povo estadunidense de excepcionalidade pela prática e propagação da liberdade, estabeleceria os fundamentos que norteariam a participação do país no sistema internacional: o direito universal e a confiabilidade nacional. Rejeitou o aumento de gastos com armamentos, diante da guerra, como proposto por Roosevelt, uma vez que esta não lhes competia. Para Wilson, a influência dos Estados Unidos estava diretamente ligada ao seu desinteresse, o que lhe garantiria, no futuro, o papel de árbitro digno de confiança entre as partes em conflito. É preciso salientar que Wilson não pretendia reduzir a participação estadunidense no sistema internacional. Pelo contrário: buscava atingir a aplicação universal dos valores do país. Foram justamente os argumentos da paz e da democracia que fundamentaram a entrada de Wilson no conflito. Ainda que a declaração alemã de guerra submarina irrestrita e o afundamento do Lusitania tenham sido apontados como causas imediatas do envolvimento dos EUA, Wilson justificaria a participação do país para que se atingisse uma ordem internacional nova e mais justa. Em sua declaração de guerra, expôs que os EUA não eram contra o povo alemão ou a Alemanha em si, mas contra o imperador Guilherme II (base de um reductio ad Hitlerum até hoje muito empregado pela grande potência, como se discutirá em outro texto). A paz e a democracia só seriam alcançadas com uma vitória total contra a ameaça por ele representada. Seus Catorze Pontos e a proposta da Liga das Nações representariam uma profunda alteração à tradição europeia baseada no equilíbrio de poderes: seria forjado um cenário mundial fundamentado nas convicções morais e na segurança coletiva de nações desinteressadas.

A oposição política
Segundo Kissinger, “por todos os princípios clássicos de ação de estado, Roosevelt tem − de longe − a melhor posição entre estes dois presidentes dos Estados Unidos. Mesmo assim foi Wilson quem prevaleceu: um século depois, Theodore Roosevelt é lembrado por seus feitos, mas foi Wilson quem moldou o pensamento americano”. Tal contraposição está presente na atual disputa presidencial entre Clinton e Trump, mas adquire novas feições.

Trump e a política externa
No caso do candidato republicano, a despeito de suas declarações xenofóbicas e comportamento histriônico, uma leitura de sua plataforma de política externa revela o desejo de atingir um mundo mais pacífico com base na força. Apresenta claramente a disposição de avançar na consolidação dos interesses nacionais do país, promover a estabilidade regional, remontar a estrutura militar, por fim à estratégia atual de mudança de regime e distender as tensões no mundo. Um de seus motes centrais, a partir de uma retórica muito próxima ao Choque de civilizações de Samuel Huntington, é acabar com o Daesh – ISIS – e com o “terrorismo islâmico”, chegando a sustentar uma aproximação com a Rússia para concretizá-lo. Num discurso de 27 de abril deste ano sobre sua política externa, disse “em vez de tentar propagar ‘valores universais’ que nem todos compartilham, devemos entender que o fortalecimento e a promoção da civilização ocidental e seus feitos farão mais para inspirar reformas positivas pelo mundo do que intervenções militares”.

Hillary e a política externa
No caso da democrata, a frase de destaque em sua plataforma de “Segurança Nacional” – na qual figura seu posicionamento político internacional − é: “(…) com políticas que nos mantenham fortes e seguros, os Estados Unidos liderarão o mundo no século XXI”. Assim como o republicano, defende a necessidade de intensificar a força da grande potência para uma posição de liderança internacional, entretanto recorre à defesa do “Smart Power”, categoria desenvolvida pelo teórico Joseph Nye. Trata-se da combinação estratégica entre o “Soft Power”, a conquista de corações e mentes pela capacidade de atração cultural e ideológica do país, e o “Hard Power”, o sistema militar-industrial estadunidense que, como aponta Claude Serfati, passou por um importante movimento de fusões e incorporações no decorrer dos anos 1990, tendo os fundos de aplicação como principais acionistas. Clinton se define como uma pragmática idealista, razão pela qual seu site sustenta que “defender os Estados Unidos e nossos valores intrínsecos (grifo nosso) é uma das bases da campanha”.

O que esperar para a América Latina
Para a América Latina, a não ser no caso específico da política migratória, não há muita diferença entre os dois candidatos. Independente de quem ganhe no dia 08, vigorará a mesma política que caracteriza a relação da grande potência com a região desde 1823: a Doutrina Monroe.

Vinicius Melleu Cione
*Formado em Relações Internacionais e um dos diretores da Parthenon Consultoria Política.
vinicius@parthenoncp.com.br

O fim da indústria (parte 2)

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Por Maurício Del Buono Ramos* e Vinicius Melleu Cione*

O fim da indústria (parte 2)
(Leia também a primeira parte deste artigo)

Em virtude de diferentes escolas e linhas de pensamento econômico, como o liberalismo ortodoxo, liberalismo heterodoxo, neoliberalismo, estruturalismo e o desenvolvimentismo, por exemplo, há certa dificuldade em compreender o conjunto de ideias que englobam cada uma. Assim, futuros artigos serão voltados ao esclarecimento de conceitos econômicos e políticos úteis ao empresário quando entendido e aplicado de maneira correta. Apesar de tantas formas de se pensar a economia, há um consenso geral: a lógica do capitalismo é a lógica da competição.

A competição quando não regulada de maneira saudável leva, de forma inevitável, à lei do mais forte; o vencedor, ou o monopólio explora e tira vantagem dos mais fracos. O que vale para a indústria – a constante busca pelo seu fortalecimento, ou no caso do Brasil, evitar seu enfraquecimento – também vale para os países e seus mercados internos.

A lógica da dominação dos países ricos é clara; suas empresas se interessam em obter lucros em países com uma economia mais fraca, ou em desenvolvimento. Esse lucro pode ser realizado ao exportar bens de maior valor adicionado per capta do que os que importam, isto é, bens manufaturados, provenientes da indústria de transformação. Também o pode através de financiamentos os quais sobreapreciam a taxa de câmbio aumentando o consumo ao invés de aumentar o investimento. Parte da inconsequência econômica e política do Brasil são vibrar com um câmbio sobrevalorizado que serve exclusivamente para adquirir bens de consumo supérfluos e desprezar as consequências em longo prazo; a desindustrialização e a reprimarização da economia, isto é, acabar com a indústria de transformação e reduzir o país a um estágio atrasado de exportador de matérias primas.

Interessa aos países desenvolvidos a abertura comercial e financeira de países subdesenvolvidos, a fim de ocupar seus mercados internos com multinacionais sem que tenham que oferecer, em troca, seus próprios mercados internos. A reciprocidade em trocar mercados internos é vista em acordos econômicos entre países já industrializados e competitivos. Também não se pode esquecer que nenhum país rico conquistou sua revolução industrial com uma abertura econômica que exigem de países pobres.

Dentro de este quadro de interesses entre nações, as teses econômicas que visam proteger as indústrias de países em desenvolvimento são descartadas e rejeitadas por economistas de países ricos, com exceção de países asiáticos, especialmente a China. Futuramente dedicarei um artigo exclusivo a respeito do protecionismo chinês o qual possibilitou seu processo de industrialização e crescimento acelerado. A educação desenvolvimentista é importante no sentido da necessidade de reverter o quadro atual de desindustrialização precoce no Brasil. As grandes mentes econômicas acabam realizando sua educação no exterior, através de MBAs, mestrados e doutorados e voltam ao Brasil exercendo uma política econômica contrária aos interesses nacionais.

As avaliações acadêmicas oferecem maior pontuação aos pesquisadores que conseguem publicar em revistas estrangeiras em detrimento das nacionais. Ao fazerem isso, incentivamos que economistas brasileiros orientem seu pensamento conforme países ricos para conseguir publicar artigos em suas revistas.

Uma última consequência por parte dos industriais brasileiros em adotar uma ideologia econômica de países desenvolvidos é acreditarem na tese de que o problema da economia brasileira – do país todo, aliás – está na má administração das instituições do estado, na má fé e incompetência de servidores e políticos e não nas políticas econômicas equivocadas, na dependência intelectual e no populismo econômico.

Este artigo é parte de uma série de posts sobre o tema da desindustrialização no Brasil.
(Leia também a primeira parte aqui).

Maurício Del Buono Ramos
*Formado em Sociologia e Política e um dos diretores da Parthenon Consultoria Política.
mauricio@parthenoncp.com.br

Vinicius Melleu Cione
*Formado em Relações Internacionais e um dos diretores da Parthenon Consultoria Política.
vinicius@parthenoncp.com.br

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