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Eleições na França: Macron e Le Pen disputarão o segundo turno

Por Vinicius Melleu Cione*

No domingo, dia 23, os franceses foram às urnas para decidir quem ocupará o Palácio do Eliseu pelos próximos cinco anos. Os dois candidatos mais votados foram o liberal-centrista Emmanuel Macron do partido Em marcha!, com 24,01%, e a candidata da ultradireitista Frente Nacional Marine Le Pen, com 21,3%, o que indica que a disputa irá para o segundo turno, a ser realizado no dia 07 de maio. A participação foi de 78,23%, ligeiramente inferior à registrada em 2012.

A França é uma República semipresidencialista, na qual se elege diretamente um chefe de Estado mediante o voto popular e este escolhe a direção do governo, o primeiro-ministro, posto que deve refletir a composição de forças dominante na Assembleia Nacional.

Durante a campanha, apesar de onze candidatos terem se apresentado, as pesquisas de intenção de voto indicavam como os quatro principais, além de Macron e Le Pen, o conservador François Fillon, de Os Republicanos, que acabou com 20% e o líder do partido de esquerda França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, que conseguiu 19,58% dos votos. O Partido Socialista, uma força política tradicional no país e grupo a que pertence o atual presidente François Hollande, conseguiu apenas 6,36% dos votos. Aliás, pela primeira vez na história da Quinta República francesa, os dois principais partidos políticos (republicanos e socialistas) estão fora do segundo turno.

Uma pesquisa divulgada no dia 20 pela Gallup indicou ainda que 43% dos cidadãos franceses não tinham mais confiança em seu governo e não tinham muitas esperanças para o futuro, percentagem bem superior a de 28% registrada nas eleições de 2012[1]. Entre os insatisfeitos, havia uma tendência maior a sentimentos anti-establishment e um rechaço não só em relação ao sistema político-eleitoral e financeiro, como também a toda a União Europeia. De acordo com a pesquisa, as bases para a insatisfação não eram necessariamente econômicas − quando perguntados sobre falta de recursos para comida ou habitação, “descontentes” e “satisfeitos” apresentavam porcentagens parecidas (12% e 10% no caso de comida, por exemplo). Entretanto, a diferença aumentava quando os dois grupos eram questionados quanto à percepção sobre seu padrão de vida: 26% dos primeiros não se sentiam contra 17% dos últimos.

Como aponta a Gallup, ainda que não exista uma carência de recursos, devido ao sólido sistema de segurança social promovido pelo Estado-providência francês, isso não implica que o país esteja passando por uma boa fase econômica.

Com efeito, as taxas de desemprego têm se revelado dramáticas desde a crise de 2008: em fevereiro deste ano, foi registrada uma cifra de 10%, que afeta de forma mais sensível (23,6%) a população com menos de 25 anos de idade[2].

O crescimento foi de 0,3% em 2016, a dívida do governo em relação ao PIB subiu de 68,1% em 2008 para 96% no ano passado e o país apresenta uma balança comercial deficitária (o último índice foi de -6,57 bilhões em fevereiro)[3].

A França vive uma desindustrialização acelerada (entre 2008 e 2016, 500 mil empregos na indústria foram destruídos), enquanto vê a outra grande potência da zona do euro, a Alemanha, num processo de franca ascensão. A participação da indústria no PIB do país caiu de 16,6% no ano 2000 para 12,4% em 2014. Embora grande parte desta queda deva ser explicada pelo crescimento verificado pelo setor terciário em todas as economias nacionais com o advento da terceira fase da Revolução científico-técnica, a maior parte da indústria no país tem sido impulsionada pela atividade agro-alimentar, o que indica uma preocupante primarização[4]. Em 2015, a França foi responsável por 11% dos produtos industrializados que circularam na União Europeia, situando-se em terceiro lugar no setor, depois de Alemanha, com 20% e Itália, com 13%.

A crise vivida pelo país dá elementos para entender a projeção de representantes e partidos não alinhados à chamada “política tradicional”: ainda que apoiado pelo setor das finanças, Macron lidera um movimento que se coloca contra o bipartidarismo no país e com um discurso de terceira via e Le Pen, por sua vez, propõe um “resgate da soberania francesa” com base num discurso refratário à União Européia e com fortes traços xenofóbicos.

Como já pontuado no texto “Reoriente-se: a retomada da ascensão asiática”, há uma estreita ligação entre a crise, a extrema direita e a retórica da antipolítica: “a crise econômica de 2008 atingiu diretamente as economias mais industrializadas e como afirma o ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis em seu O minotauro global, ‘o governo permitiu que o serviçal mais forte e grotesco do Minotauro Global tivesse um retorno poderoso após a queda da besta. Foi apenas um movimento dentre muitos que os políticos fizeram ao longo de um caminho que, ironicamente, levou-os ao seu próprio desempoderamento. Ao fortalecer o lado dos bancos falidos, eles privaram-se de qualquer possibilidade para a elaboração de políticas eficazes. Com os poderes de Wall Street restaurados, a política perdeu sua capacidade de conter o avanço da Crise’. Nos países ocidentais, tal restauração do poder da banca, facilitada por representantes dos mais variados matizes políticos, foi interpretada como fraqueza e traição pelo eleitorado. Ao mesmo tempo em que generalizou a apatia política e a sensação de falência institucional geral, a crise ressuscitou o nacionalismo de extrema-direita com seu discurso de culpabilização do outsider pela condição social adversa. São, em geral, votos de protesto e antiglobalização, causados por uma angústia contra a perda sentida de soberania nacional”.

Diversas forças políticas dentro e fora da França declararam seu apoio ao jovem candidato, entre elas se destacam o atual presidente François Hollande, o secretário geral do Partido Socialista, Jean-Christophe Cambadélis (quem afirmou se tratar de uma decisão unânime do bureau nacional do partido), o ex-candidato conservador François Fillon de Os Republicanos e o comissário europeu de Assuntos Econômicos Pierre Moscovici. Apesar de a empresa de pesquisa Opinionway indicar uma vitória fácil do ex-ministro da Economia contra a candidata da Frente Nacional por 61% a 38%, a eurofobia de Le Pen preocupa muitos políticos do continente, ainda mais num contexto de questionamento do bloco regional pós-Brexit.

As eleições na França têm, portanto, uma grande importância política. Está em jogo não somente o futuro do país, como também de toda a União Europeia, já que um eventual Frexit (saída francesa do bloco sinalizada por Marine Le Pen) desestabilizaria por completo o mercado comum. Como indicado pelas pesquisas, Le Pen pode até não vencer a disputa, mas o fato de um partido de extrema direita e anti-UE ter chegado ao segundo turno de um país tão central como a França indica que a crise político-econômica na Europa ainda está longe de seu fim.


[1] De acordo com o site http://www.gallup.com/poll/208781/france-primed-populist-wave-ahead-election.aspx, consultado a 23/04.
[2] De acordo com o site http://countryeconomy.com/unemployment/france, consultado a 23/04.
[3] De acordo com o site http://www.tradingeconomics.com/france/indicators, consultado a 23/04.
[4] De acordo com o site http://www.gouvernement.fr/partage/3813-l-industrie-en-france, consultado a 23/04.

Vinicius Melleu Cione
*Formado em Relações Internacionais e um dos diretores da Parthenon Consultoria Política.
vinicius@parthenoncp.com.br

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Sorte, meritocracia e futuro econômico

Sorte

Por Ronaldo Ramos*

Em recente artigo publicado por Jonathan Derbyshire no Financial Times, intitulado “The luck factor: fortune’s role in our lives”, aprendi que a questão da relação entre diferentes tipos de sorte, talento e recompensa tem preocupado filósofos e cientistas sociais por décadas.

Ele comenta que a questão tem sido central em 3 novos livros, escritos pelo economista comportamental Robert Frank, pelo sociólogo Mike Savage e pelo jornalista Lynsey Hanley.

Um dos argumentos presentes no livro do primeiro autor discute se a ideia de meritocracia e a premissa de que o sucesso das pessoas é apenas alcançado por conta de seus próprios esforços ignora o fato de que o sucesso e o fracasso são altamente dependentes de fatores fora de controle do indivíduo.

Eu acrescentaria que a ideia de sucesso ou fracasso pode ser relativizada se vista por diferentes ângulos, bem como a própria noção de preço a ser pago pelo sucesso, que abre todo um domínio de discussões.

Segundo o autor, é difícil pensar claramente sobre sorte e sucesso, já que a dificuldade principal vem em parte do fato de que todos compartilhamos algum tipo de bem enraizada intuição sobre conceitos do tipo talento, merecimento e direito, que competem com a noção sobre o papel que a sorte tem nas nossas vidas.

De certa forma, a maioria de nós se sente privilegiada por ter habilidades que nada fizemos por merecer. Ter nascido com certos dons parece tão arbitrário quanto ter nascido de olhos azuis ou com nariz bonito.

Sobre comportamentos derivados destes conceitos, diz-se que as pessoas bem-sucedidas tendem a subestimar o papel da sorte em suas vidas. E que este modo de pensar tem consequências políticas pois faz com que estas pessoas sejam menos generosas na hora de apoiar investimentos (financiados com impostos) necessários para manter um bom ambiente social.

Por isso, questionar a meritocracia na era em que vivemos pode ser fundamental para que possamos considerar nosso papel no Planeta, a solidariedade, o respeito àqueles aparentemente menos providos de qualidades hoje admiradas e até a própria função social daqueles que concentram a renda de maneira desigual.

A função da empresa e do empreendedor na sociedade e no ecossistema deve e precisa ser revista rapidamente, sob pena de transformarmos os ricos em buracos-negros ao estilo da sombria analogia astrofísica para uma descrição das mais pessimistas previsões de futuro para a humanidade.

Afinal, se a renda continuar a se concentrar como estamos observando, quem vai continuar nutrindo sonhos de consumo e manter a máquina produtiva atual em constante demanda?

Ronaldo Ramos
*Fundador do CEOlab e professor associado da FDC
ronaldo.ramos@ceolab.net

A Política e a Economia

Conference meeting microphones with tribune on white background.

Por Walter Mendes*

Há no ar um desânimo em relação à possibilidade de encaminhamento de uma solução para a recessão econômica pela via política.

A forte rejeição ao governo, a indignação com a avalanche de descobertas sobre corrupção e a avassaladora deterioração da economia surpreendentemente não têm se constituído em combustível suficiente para uma significativa mudança do quadro político. Este se mostra estagnado, paralisado, incapaz de propor reformas ou negociar alternativas para o país.
Vou tentar levantar algumas explicações para esse quadro desafiador.

A estrutura partidária e eleitoral que surgiu após a queda da ditadura em 1985 tentou se contrapor a tudo o que havia anteriormente. Assim, como negação do bipartidarismo artificial imposto pelos militares, foi estabelecida uma legislação liberal para criação de partidos. Até aí, tudo bem, mas essa liberalidade foi estendida à representação parlamentar e ao acesso aos recursos públicos.
Apesar de muitas tentativas, não vingou uma cláusula de barreira, o percentual mínimo de votos para que um partido tenha representantes no Legislativo. Como também não houve a imposição de um porte mínimo para o partido ter acesso aos recursos públicos do fundo partidário, que hoje soma quase R$900milhões, valor suficiente para aguçar a imaginação dos políticos para criarem partidos cujo principal objetivo é ter acesso a esses recursos.
Além disso, manteve-se a propaganda política obrigatória e gratuita no rádio e TV, a permissão de contribuições de campanha por pessoas jurídicas (só recentemente proibida na esteira da operação Lava a Jato), a livre coligação para todas as eleições de cargos executivos e uma frouxa regra de fidelidade partidária.

O resultado foi o estabelecimento de um quadro partidário extremamente fragmentado, volátil e pouco confiável, sem compromisso ideológico, dominado por lobbies diversos e fechado em seus próprios interesses. Enfim, parece muito mais um ramo de negócio do que uma representação da sociedade.

O Brasil tem hoje 35 partidos devidamente registrados (o último a conseguir registro foi curioso PMB- Partido da Mulher Brasileira). Até aí, não seria um problema. Ocorre, porém, que praticamente todos tem representação na Câmara dos Deputados e vários no Senado. O maior partido da Câmara (PMDB, que por si só já é uma frente) tem apenas 13% da bancada. Os 10 maiores partidos têm 70% dos deputados, respondendo o décimo (PPS) por apenas 2%.
Não há cláusula de barreira para ter representante no parlamento. Nas democracias dos países desenvolvidos, há limites da ordem de 5% dos votos, como na Alemanha.

No Senado Federal, o quadro é menos fragmentado, mas mesmo assim, o maior partido (PMDB) tem apenas 21% dos membros e há 15 partidos representados.

Registra-se também uma curiosa tendência de transformação da atividade política em fator hereditário. Atualmente, 47% dos deputados federais pertencem a famílias de políticos. Essa proporção é 10 pontos percentuais superior ao quadro de 2002.

Nota-se então um crescente encastelamento dos políticos em seus cargos, isolados da sociedade e dominando as estruturas dos partidos, cada vez mais ocupadas por profissionais do ramo e cada vez menos permeáveis a renovação. Os políticos com legítimo engajamento ideológico são discriminados (por não terem “jogo de cintura”), migrando para pequenos partidos ou deixando o parlamento. Os novos nomes com forte base social e/ou interesse em mudanças substanciais são desencorajados pela máquina partidária ou abandonam o barco decepcionados.

Entre tantas consequências dessa transformação dos partidos políticos em quase-negócios, fechados e isolados da sociedade, é a ascensão de lideranças de caráter corporativo, em substituição à liderança partidária caracterizada pela consistência política, capacidade de elaboração e negociação de propostas de alcance social, carisma e convicção.

A nova liderança de caráter corporativo é aquela que apresenta maior capacidade de defesa dos interesses da corporação, de ampliar o negócio, de aumentar o retorno financeiro, extraindo as maiores vantagens possíveis para os próprios membros.

A consequência desse quadro político para a atuação do poder executivo é a perda da funcionalidade, retratada na dificuldade de negociação de reformas ou de qualquer medida de austeridade fiscal ou que implique em qualquer redução de vantagens ou benefícios.

Mesmo os mais populares membros do Executivo mostram dificuldade na negociação com os poderes legislativos, dada a enorme fragmentação do quadro partidário e do isolamento dos políticos. A falta de densidade ideológica e do interesse público retiram a base legítima da negociação, que passa cada vez mais para o campo do interesse pessoal, do interesse do partido ou dos grupos de pressão organizados, também conhecidos por lobbies.

A tendência dos ocupantes dos cargos executivos, cuja origem usualmente também é desse ambiente partidário distorcido, é contemporizar com essa situação.

Alguns partem para a cooptação pura e simples, seja através da barganha de cargos no governo ou mesmo a objetiva “compra de apoio”, cuja mecânica veio à luz no processo do mensalão, mas que não deve ser um fenômeno isolado.
Isso pode funcionar durante algum tempo, mas há muitos riscos inerentes ao processo. Um deles é o de denúncia pública, gerando perda de prestígio político ou processo judicial, travando ou dificultando a negociação. O maior risco, porém, é o de criar dependência crescente, que vai aumentando o custo e torna o Executivo refém.

Outros partem para o isolamento do Executivo, que tenta governar nos limites do que possa ser feito com um mínimo ou mesmo sem o apoio do Legislativo. O risco é o de paralisia da administração, pois o Legislativo não tem responsabilidade de governo, como no parlamentarismo.

Outros ainda, oscilam entre o isolamento e a cooptação, enviando mensagens inconsistentes aos políticos e colhendo derrotas políticas, mesmo pagando o custo político e o financeiro.

O nosso poder executivo federal presidencialista tem optado, conscientemente ou não, pelo caminho da oscilação entre o isolamento (dado o voluntarismo da presidente) e a cooptação (típica do seu partido e do seu padrinho político), colhendo o pior dos resultados.

A incerteza derivada dessa situação é terrível para a economia. Cobra um alto preço da política fiscal, pois os gastos do governo só têm o sentido de aumento. Os gastos correntes são necessários para manter o apoio político e as reformas estruturais são impossíveis de serem negociadas, quanto mais aprovadas.

Enquanto há capacidade ociosa para ocupar na indústria, mercado externo crescente para os produtos exportáveis, capacidade de expansão do endividamento do consumidor, espaço para financiamento subsidiado de investimentos por órgãos estatais e disponibilidade para aumentar o investimento das empresas de controle estatal, a economia cresce, apesar dos desequilíbrios estruturais.

Na medida em que esses espaços de manobra se esgotam, a economia desaba na crise que vivenciamos no momento.
Aí vem a conta da falta de liderança política legítima, da inconsistência ideológica e programática dos nossos partidos, da carência de fóruns de negociação, da perda de representatividade e legitimidade dos políticos em geral.

Muito dificilmente a saída desta crise virá de uma negociação política que passe pelos partidos, pelos políticos ou pelo parlamento, como já vimos no Brasil, por exemplo na crise de 1992.
Tanto o governo federal, quanto o poder legislativo, provavelmente vão “empurrar a crise com a barriga”, aguardando que as novas eleições para presidente promovam algum rearranjo político que mude as expectativas e tome algumas das medidas necessárias para estabilizar a economia brasileira.

O mais desanimador desse quadro é o comportamento da elite econômica do país, que se mostra aparentemente conformada com esse quadro e não esboça qualquer reação para encaminhar propostas ou ações que mudem o rumo do desastre.
Talvez nossa crise de liderança seja maior do que imaginávamos. A elite econômica não tem sido capaz de gerar lideranças que enxerguem ou atuem para além do interesse imediato de suas corporações. A carência de lideranças com visão social e de longo-prazo é totalmente clara no mundo político, mas já deve ter-se espalhado por toda a sociedade.

Walter Mendes
*Especialista em gestão e start-ups

walter.mendes.of@gmail.com

É preciso liderar a distribuição do futuro

ceolab-futuro-700

Por Ronaldo Ramos*

“O futuro está aí – só não está plenamente distribuído.” A frase do visionário William Gibson, autor da trilogia Sprawl – que inspirou os filmes Matrix –, é motivo extenso para debate independentemente da época. Em nossa realidade, pode significar a redistribuição, em um cenário de consumo excessivo e recursos naturais escassos, no qual o compartilhamento das riquezas e bens torna-se fundamental para a prosperidade do planeta e da humanidade.

A ficção retratou a queda da Nação como modelo, pessoas modificadas por próteses de membros ou biochips, cidades inteiras situadas em órbitas espaciais, lutas pelo poder entre grandes corporações e uma espécie de alucinação coletiva digital, a Matrix, acessada por computadores, na qual a humanidade inteira está conectada. Uma sociedade movida a prazeres e totalmente dominada por máquinas criadas exclusivamente para produzir ilusões de que uma nova vida, aquela utopia que sonhamos, pode ser vivida.

As lideranças do mundo dos negócios, da política, do terceiro setor, de sindicatos ou de grupos comunitários têm um papel decisivo no desempenho de suas organizações. O posicionamento que assumem perante a sociedade e diante de assuntos polêmicos, a forma como interagem com as pessoas, o tempo de resposta diante de uma crise iminente são alguns dos fatores que podem ser decisivos para a formação da reputação e da imagem de uma instituição.

A partir de uma análise etimológica, entretanto, descobrimos que um líder, além de assumir a responsabilidade por determinado setor ou atividade, é também uma pessoa que exerce influência sobre o comportamento, o pensamento ou a opinião das pessoas – para o bem ou para o mal. E isso passa, inevitavelmente, por uma boa comunicação.

Segundo Harsey, 1986, a partir da concepção do homo social, surgiu a necessidade de um líder que facilitasse a relação das pessoas no grupo e que orientasse o grupo no alcance dos objetivos organizacionais. O líder passou, então, a concentrar-se nas necessidades das pessoas enquanto seres sociais, como forma de atingir as metas da organização.

“Há que se considerar, também, que os acontecimentos dramáticos que se observa universalmente, quer se trate da deteriorização da condição física, psíquica e cultural de grande parte da humanidade, da violência, dos conflitos que minam todos os patamares da sociedade, das ameaças que planam sobre o equilíbrio ecológico e do globo e do estado de confusão que reina ao nível dos valores morais e éticos, exigem imperiosamente que nos interroguemos, com maior rigor, sobre as consequências do triunfo do economismo de vista curta e sobre as finalidades da empresa, instituição que acabou por se transformar no pivô em torno da qual todas as outras instituições gravitam.”
Alain Chanlat

Nunca precisamos tanto de solidariedade como agora, e de que forma o CEO pode fazer o seu trabalho de maneira consistente? Preservar mercado? Manter os consumidores dentro de determinadas faixas de poder aquisitivo? As responsabilidades do CEO se confundem com as do cidadão e, portanto, não podemos mais abrir mão de considerar diversos parâmetros durante a elaboração dos planos estratégicos.

Normalmente, nos preocupamos muito com a qualidade da informação e do conteúdo acadêmico de nossos ciclos de planejamento estratégico e de execução em busca de excelência operacional. Esquecemos de refletir sobre a qualidade do elemento humano que vai desenvolver o planejado e suas diversas dimensões de percepção na vida e no trabalho.

Na sustentabilidade, o ciclo de vida do produto é apenas um dos elementos. E os outros? Por quanto tempo os efeitos colaterais da produção e do uso do produto permanecerão? E de seus resíduos? E os efeitos sobre os consumidores e empregados? Sou dono ou inquilino? Do Planeta? Do País? Da comunidade onde vivo? Das comunidades de consumidores e colaboradores? Dos vizinhos?

Líderes empresariais e intelectuais sofisticados já sabem disso; começam a surgir elementos promissores de um novo modelo. Ainda não temos, no entanto, um marco geral para nortear essa iniciativa — e a maioria das empresas continua presa a uma mentalidade de “responsabilidade social” na qual questões sociais estão na periferia, não no centro.

Recente pesquisa da universidade de Georgia, nos Estados Unidos, mostra que 25% dos lucros de uma empresa podem ser atribuídos à gestão do CEO. Nos anos 1960 e 1950, esse número ficava entre 6% e 8%. Mas quais aspectos tornaram maior a importância do CEO?

Em primeiro lugar, mesmo em um ambiente de negócios onde o conselho e outros altos executivos têm influência crescente, o CEO dá o tom da organização e tem o poder de decisão de contratar ou reter profissionais-chave. Hoje, ele também pode promover mudanças importantes em questão de semanas. Há 50 anos, o mundo não se movia com tamanha velocidade. Aliado a isso, a tendência de diminuição dos níveis hierárquicos favoreceu a rapidez da tomada de decisão dentro da organização.

Outro aspecto é a estrutura de remuneração para altos executivos, que incentiva o risco. Isso encoraja os CEOs a tomarem muitas decisões, na esperança de serem recompensados por uma boa remuneração variável. A pesquisa, de autoria do professor de administração Tim Quigley, analisou o desempenho de companhias americanas nos últimos 60 anos. Foram isolados aspectos como as condições econômicas do período, diferenças entre setores e o histórico de cada empresa.

O capitalismo é um veículo inigualável para a satisfação das necessidades humanas, o aumento da eficiência, a criação de emprego e a geração de riqueza. Só que uma concepção estreita do capitalismo impediu que a atividade empresarial explorasse todo seu potencial para enfrentar os grandes desafios da sociedade. As oportunidades sempre estiveram aí, mas foram negligenciadas.

Zygmunt Bauman no seu trabalho Modernidade Líquida (2001) faz um pertinente estudo das transformações de nossa época e que passaria da “solidez” de um capitalismo “pesado” para a fluidez de um capitalismo “leve” que movimenta os moinhos do hiperconsumo. As metáforas entre “sólido” e “líquido” são muito mais profundas do que aparenta, sendo possível criar uma distinção entre estes dois momentos díspares.

O consumo colaborativo baseia-se em um conceito simples: alavancar valor de ativos que não estão sendo totalmente explorados por seus donos. Um dos programas de pesquisa da University of Innsbruck busca identificar modelos de negócio inovadores enquanto é criado valor para a comunidade. Nesse contexto, estudou o compartilhamento de ativos, o que foi a base para o artigo do MIT Sloan Management Review sobre o tema.

Sem dúvida um conceito com menor foco no consumo e maior foco na troca tem um impacto reduzido nos recursos naturais, tornando-o um negócio que contribui para a sustentabilidade. Isso mesmo, o conceito é explorado como um negócio e, portanto, pode tornar-se uma oportunidade para empresas e investidores.

De acordo com o artigo, uma pesquisa da PricewaterhouseCoopers revelou que o mercado global de produtos e serviços compartilhados, ou de consumo colaborativo, poderá chegar a US$ 335 bilhões em 2025. Além disso, esse mercado tem apresentado um rápido crescimento nos últimos anos.

As consequências de meus atos serão por mim acompanhadas pelo período médio atual de 100 anos de idade, sendo ativo na carreira até, quem sabe, 75 ou 80 anos. Meus conhecimentos e minha qualidade de execução precisam abranger esta longevidade, mesmo sendo o CEO à frente de uma organização por um tempo infinitamente menor, em torno de 5 anos mais ou menos. Em vista disso, quem é o planejador e o que ele considera como seu horizonte?

*Fundador do CEOlab e professor associado da FDC
ronaldo.ramos@ceolab.net

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