O sonho de consumo acabou

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Por Danilo Cury*

Nos anos 1980 e na primeira metade dos anos 1990, era normal termos no Brasil uma inflação que chegava a 20% ao mês. Isso penalizava, basicamente, a classe média e as inferiores. Imaginem: um salário de 100 (em uma moeda qualquer da época) chegava ao bolso do trabalhador valendo 83 no fim do mês (no recebimento) e 69 até o fim do mês seguinte (quando teria que fazer as compras e pagar suas contas).

As classes A e B tinham como se defender da alta de preços, parcelando suas compras e aplicando em fundos atrelados ao índice de inflação ou à variação do câmbio. Tivemos também cinco planos econômicos que não deram certo e prejudicaram todos igualmente.

O Plano Real reorganizou a economia, derrubou o índice de inflação para níveis de até 10% ao ano e foi o último pacote econômico de grande porte até agora. Beneficiou, principalmente, as classes menos favorecidas, que passaram a consumir mais e comprar bens que nem sonhavam em ter nos anos anteriores.

Nos anos 2000, com a economia organizada, o aumento dos preços das commodities (nossas exportações se baseiam principalmente em mercadorias, como minérios, alimentos etc.) e os programas sociais, que foram instalados na primeira metade da década, mais de 40 milhões de pessoas vieram para o mercado de consumo, a chamada “nova classe C”, isto é, a população anteriormente classificada como “classe D”. Isso provocou um boom extraordinário na economia. Só em 2010 o PIB subiu 7,6%, um aumento equivalente ao que a China havia crescido nos últimos anos. Entramos em um círculo virtuoso.

A partir de 2010, com uma política que privilegiou o consumo e não a produção, deixou de lado a parte fiscal e manteve o Real supervalorizado, a economia brasileira entrou em um estado de letargia, que culminou na recessão de 2015 – a expectativa é de que o PIB recue em torno de 3%. Para 2016, a previsão é de -2%, mesmo com todos os ajustes a serem feitos.

A taxa de desemprego vai ficar em torno de 10%, o que representa mais ou menos 10 milhões de trabalhadores desempregados.

A inflação está em alta.

A nova classe média volta a ser classe D e está consumindo basicamente o essencial.

Com isso, a economia brasileira entra em um círculo vicioso, do qual só deve sair em 2018 (esperamos).

Como disse John Lennon, “o sonho acabou” e está virando um pesadelo, infelizmente.

*Especialista em planejamento e execução de negócios
dan_cury@terra.com.br

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