Ronaldo Ramos
Talvez a discussão mais importante não seja sobre tecnologia, mas sobre a forma como decidimos utilizá-la.
Há algum tempo venho acompanhando com interesse o debate provocado pelos estudos do economista Daron Acemoglu sobre os efeitos econômicos da inteligência artificial. O que mais chamou minha atenção, entretanto, não foi sua estimativa de crescimento para o PIB americano ao longo da próxima década, mas a distância entre suas conclusões e boa parte das projeções hoje presentes no mercado.
Enquanto muitas análises anunciam uma transformação econômica acelerada, com ganhos expressivos de produtividade em praticamente todos os setores, Acemoglu propõe uma leitura mais cautelosa. Em sua avaliação, a inteligência artificial deverá produzir benefícios relevantes, mas seu impacto agregado sobre a economia americana tende a ser mais moderado do que o entusiasmo atual costuma sugerir.
Independentemente de qual estimativa venha a se confirmar, a divergência oferece uma oportunidade valiosa de reflexão para conselhos de administração. Talvez a questão mais relevante não seja descobrir quem acertará os números, mas compreender por que especialistas igualmente respeitados chegam a conclusões tão diferentes.
Essa diferença revela que a inteligência artificial ainda está sendo interpretada por lentes distintas. Algumas análises concentram-se na extraordinária capacidade técnica dos novos modelos. Outras procuram compreender de que maneira empresas, pessoas e instituições conseguirão transformar esse potencial em crescimento econômico consistente. Embora pareçam semelhantes, essas abordagens respondem a perguntas diferentes.
Ao longo de minha trajetória profissional, acompanhei organizações enfrentarem sucessivas ondas de transformação tecnológica. Sistemas integrados de gestão, digitalização das cadeias de suprimentos, Internet comercial, mobilidade, computação em nuvem, análise avançada de dados e, mais recentemente, inteligência artificial. Em retrospectiva, percebo que a tecnologia raramente representou o maior desafio. As dificuldades mais complexas surgiram quando modelos de gestão, estruturas organizacionais, mecanismos de decisão e sistemas de incentivo permaneceram ancorados em um contexto que já havia deixado de existir.
Esse talvez seja o principal ensinamento da obra de Acemoglu. Seu foco não está apenas na inovação tecnológica, mas na qualidade das instituições que orientam seu desenvolvimento e sua utilização. Em livros como Why Nations Fail, The Narrow Corridor e, mais recentemente, Power and Progress, ele demonstra que prosperidade duradoura depende menos da existência de novas tecnologias e muito mais da capacidade das sociedades de criar regras, incentivos e organizações capazes de transformar inovação em desenvolvimento.
Essa perspectiva merece atenção especial por parte dos conselhos de administração.
Grande parte das discussões sobre inteligência artificial concentra-se na automação de tarefas, na redução de custos e nos ganhos imediatos de eficiência. São objetivos legítimos e, em muitos casos, economicamente relevantes. Entretanto, limitar a discussão a esses aspectos pode levar organizações a perderem uma oportunidade muito maior.
Toda transformação tecnológica produz ganhos operacionais. Poucas conseguem alterar profundamente a capacidade de uma organização aprender, inovar e criar novos modelos de negócio. É justamente essa diferença que costuma separar empresas que apenas acompanham mudanças daquelas que ajudam a definir os rumos de seus setores.
Sob essa perspectiva, a responsabilidade do conselho amplia-se significativamente. Além de acompanhar investimentos em tecnologia, passa a ser necessário observar se a organização está desenvolvendo novas competências, fortalecendo sua capacidade de aprendizagem, revisando seus processos decisórios e criando um ambiente institucional capaz de aproveitar o potencial da inteligência artificial de forma consistente e responsável.
Talvez essa seja a contribuição mais valiosa da discussão iniciada por Acemoglu. Ela desloca o foco da tecnologia para a qualidade das decisões. Em vez de perguntar apenas quanto a inteligência artificial poderá economizar, somos convidados a refletir sobre quais capacidades ela poderá ampliar, quais competências humanas ganharão importância e quais modelos de negócio poderão surgir a partir dessa nova realidade.
Conselhos de administração sempre tiveram como uma de suas principais responsabilidades interpretar mudanças de contexto antes que elas se tornem evidentes para toda a organização. Essa competência torna-se ainda mais relevante quando transformações tecnológicas convivem com expectativas elevadas, incertezas legítimas e projeções frequentemente contraditórias.
Talvez, nesse momento, a maior contribuição que um conselho possa oferecer não seja acelerar indiscriminadamente a adoção da inteligência artificial nem retardá-la por excesso de cautela. Seu papel é construir condições para que a organização aprenda continuamente, experimente com responsabilidade, desenvolva pessoas e fortaleça sua capacidade de adaptação.
A história econômica mostra que tecnologias passam. Algumas tornam-se obsoletas, outras evoluem e poucas transformam definitivamente a forma como produzimos riqueza. Permanecem, porém, as organizações que conseguem aprender mais rapidamente do que as mudanças que ocorrem ao seu redor.
Talvez seja essa a reflexão mais importante para os próximos anos. A inteligência artificial certamente continuará evoluindo. A pergunta que permanece aberta é se nossas organizações conseguirão evoluir com ela.
Referências
- Acemoglu, D. Introduction to Modern Economic Growth. MIT Press, 2008.
- Acemoglu, D.; Johnson, S. Power and Progress. PublicAffairs, 2023.
- Acemoglu, D.; Robinson, J. Why Nations Fail. Crown Business, 2012.
- Acemoglu, D.; Robinson, J. The Narrow Corridor. Penguin Press, 2019.
- Acemoglu, D. The Simple Macroeconomics of AI. MIT Working Paper, 2024.
- Aghion, P.; Howitt, P. The Economics of Growth. MIT Press.
- Mokyr, J. The Lever of Riches. Oxford University Press.
Ronaldo Ramos é fundador do CEOlab, conselheiro e mentor de CEOs, acionistas, executivos C Level e famílias empresárias. Sua atuação combina experiência executiva, prática de conselho, governança, estratégia, desenvolvimento de lideranças e apoio a decisões críticas em ambientes de crescimento, sucessão, transformação e complexidade. Saiba mais!





