Trago este ponto para reflexão do conselho a partir de um relatório recente da McKinsey & Company, intitulado The State of Organizations, que analisa de forma consistente como as organizações estão sendo redesenhadas por forças estruturais profundas, simultâneas e de caráter duradouro.
Diagnóstico do modelo organizacional atual
A principal mensagem do estudo é direta e, confesso, desconfortável, pois evidencia que muitos modelos organizacionais ainda operam segundo premissas de um mundo que já não existe, sustentadas por estruturas rígidas, decisões lentas e silos funcionais que comprometem seriamente a adaptação.
Vetores estruturais de transformação
O relatório mostra que três forças atuam de maneira combinada e irreversível, alterando a lógica de funcionamento das organizações e exigindo revisões mais profundas do que simples ajustes incrementais em processos, estruturas ou modelos tradicionais de governança.
Tecnologia como redefinição operacional e decisória
A primeira dessas forças é a tecnologia, uma vez que dados, digitalização e inteligência artificial estão transformando decisões, processos e relações de poder, redefinindo a velocidade de resposta organizacional e a forma como o conhecimento é produzido e compartilhado.
Transformação do modelo de trabalho
A segunda força é o trabalho, que deixou de ser híbrido apenas no sentido espacial e passou a ser híbrido na interação entre seres humanos, inteligência artificial e robôs, o que nos impõe apoiar ativamente os colaboradores na transição, na aquisição de novas capacidades e na redefinição sustentável de papéis e valor.
Esse novo arranjo do trabalho desafia modelos clássicos baseados em controle hierárquico e supervisão contínua, exigindo maior confiança, aprendizagem permanente e investimento deliberado na capacidade humana de adaptação, julgamento e colaboração em ambientes mais complexos.
Pressões sociais e legitimidade institucional
A terceira força é a sociedade, já que expectativas relacionadas à sustentabilidade, diversidade, ética e impacto social passaram a influenciar diretamente a estratégia, a reputação e a legitimidade das organizações perante clientes, investidores, colaboradores e a sociedade em geral.
Risco de captura tática da inteligência artificial
O relatório traz também um alerta importante ao mostrar que muitas empresas estão utilizando inteligência artificial predominantemente como ferramenta de redução de custos, focando automação como substituição de pessoas, o que tende a gerar ganhos de curto prazo acompanhados de fragilidade estrutural.
IA como alavanca estratégica de capacidades
A provocação que considero mais relevante é outra, ao nos convidar a refletir sobre como a inteligência artificial pode ser utilizada para ampliar capacidades humanas, apoiar decisões mais qualificadas e liberar tempo cognitivo hoje consumido por tarefas repetitivas e de baixo valor agregado.
Quando bem aplicada, a tecnologia não apenas aumenta eficiência operacional, mas potencializa talentos individuais, amplia a ambição da organização e fortalece capacidades essencialmente humanas, como julgamento contextual, criatividade e construção de relações de confiança.
Implicações para a liderança
Esse movimento, no entanto, exige escolhas claras de liderança, pois maior autonomia precisa vir acompanhada de direção estratégica explícita, critérios consistentes de decisão, mecanismos de responsabilização e coerência entre discurso, incentivos e práticas cotidianas.
Agenda do conselho
Do ponto de vista do conselho, entendo que a questão central não é primordialmente tecnológica, mas organizacional, envolvendo avaliar se nosso modelo atual sustenta a ambição estratégica definida, se os incentivos reforçam os comportamentos desejados e se a liderança está preparada para esse novo equilíbrio.
Integração estratégica para geração de valor
O relatório reforça, por fim, uma visão sistêmica de governança, na qual estratégia, pessoas e tecnologia não podem ser tratadas de forma isolada, cabendo a nós, como conselho, integrar esses temas para fortalecer resiliência, legitimidade e criação de valor no longo prazo.





