Longevidade profissional nas empresas: quando a experiência deixa de ser memória e passa a ser estratégica

longevidade-profissional-nas-empresas

Ronaldo Ramos

Maria José Tonelli

Uma transformação estrutural

A recente reportagem publicada pela Forbes Brasil sobre o crescimento dos profissionais com 75 anos ou mais no mercado de trabalho dos Estados Unidos merece uma leitura mais ampla do que a curiosidade estatística sugere.

O dado, apoiado em levantamento do Pew Research Center, mostra que a presença de pessoas em fases avançadas da vida profissional deixou de ser exceção. Ela passou a compor uma transformação estrutural do trabalho, da carreira, da previdência, da saúde, da renda e da própria ideia de contribuição.

No contexto atual, talvez o ponto mais relevante não esteja na idade, mas sim no modo como as organizações lidam com repertórios diferentes convivendo ao mesmo tempo, com múltiplas gerações, sob pressões tecnológicas, econômicas, sociais e culturais cada vez mais intensas.

A longevidade profissional não deveria ser lida apenas como permanência. Permanecer pode significar escolha, necessidade, vínculo, renda, vocação, curiosidade, responsabilidade ou desejo de continuar participando. Reduzir esse fenômeno a uma única explicação empobrece o debate.

Novas identidades 

Talvez esta seja uma das mudanças mais importantes da carreira contemporânea. A trajetória profissional deixou de caber na imagem de uma escada. Ela se aproxima mais de um portfólio de contribuições. Em alguns momentos, a pessoa executa. Em outros, lidera. Em outros, aconselha. Em outros, aprende novamente. Em outros, ajuda a organização a pensar melhor.

Essa leitura é especialmente relevante em um mundo no qual a expectativa de vida se amplia, a tecnologia muda rapidamente e as empresas precisam preservar conhecimento sem perder agilidade. O desafio não é apenas manter pessoas produtivas. É criar sistemas nos quais a produtividade seja acompanhada por significado, atualização e cooperação real.

A longevidade tem promovido mudanças identitárias: Arthur Brooks, em “From Strenght to Strenght: finding success, happiness and deep purpose in the second half of life” e Herminia Ibarra, em “Working Identity: unconventional strategies for reinventing your career”, mostram que teremos múltiplas carreiras, ou melhor, múltiplas inserções profissionais, em diferentes organizações, e em formatos muito diferentes daqueles que organizaram a carreira tradicional na segunda metade do século passado, com um portfolio de contribuições ao longo da vida.   

O valor da experiência vai além da idade

Também não se trata de transformar idade em virtude automática. A experiência acumulada pode ser valiosa, mas não substitui atualização, escuta, flexibilidade intelectual e disposição para aprender. O valor não está no calendário e sim na capacidade de transformar vivência em critério, percepção em pergunta, erro em método e conhecimento tácito em contribuição compartilhável. Os profissionais maduros podem contribuir com flexibilidade intelectual e compartilhamento de conhecimentos tácitos que podem ser perdidos com perdas para a avaliação de contexto e suas consequências. 

A inteligência artificial acelera análises, amplia produtividade, automatiza rotinas e muda a base de várias profissões. Ao mesmo tempo, aumenta a importância de capacidades que não nascem apenas de treinamento técnico: julgamento, leitura de contexto, leitura de consequências, sensibilidade institucional, negociação, prudência, imaginação e capacidade de formular problemas melhores.

Essas capacidades não pertencem a uma faixa etária. Elas podem existir em diferentes momentos da carreira, desde que encontrem ambiente favorável para circular. A questão, portanto, não é quem tem mais valor. A questão é como criar condições para que competências distintas se encontrem, sem polarizações entre o velho e o novo, com muros construídos por uma hierarquia artificial entre passado e futuro.

Organizações maduras 

O debate sobre longevidade profissional costuma escorregar para uma linguagem pobre. De um lado, romantiza a permanência no trabalho como prova de vitalidade. De outro, trata profissionais experientes como custo, obstáculo ou resíduo de uma ordem antiga. Nenhuma dessas leituras ajuda.

Uma organização madura não precisa escolher entre renovação e continuidade. Ela precisa aprender a combinar as duas. Continuidade sem renovação vira repetição. Renovação sem continuidade vira improvisação. O ponto de equilíbrio não nasce de slogans, mas de desenho institucional.

Esse desenho começa quando a empresa reconhece que conhecimento relevante nem sempre está nos sistemas, nos manuais ou nos painéis de indicadores. Muitas vezes, ele está nas conversas que explicam por que certas decisões funcionaram, por que algumas apostas fracassaram e por que determinados riscos foram subestimados.

Há uma diferença importante entre registrar informação e transmitir discernimento. Informação pode ser armazenada. Discernimento precisa ser elaborado em relação, em contextos específicos, com sensibilidade e diálogos. 

Arquitetura da contribuição

É por isso que programas de mentoria, conselhos consultivos, comunidades de prática e rituais de aprendizagem podem ser tão relevantes quando bem desenhados e coordenados. A mentoria, nesse contexto, não deve ser entendida como aconselhamento nostálgico. Ela deve funcionar como uma arquitetura de reflexão. Seu papel não é preservar autoridade, mas melhorar a qualidade das perguntas. Não é cristalizar experiências, mas torná-las úteis para decisões que ainda não têm resposta pronta.

A melhor colaboração entre pessoas com trajetórias diferentes ocorre quando ninguém é convidado apenas a representar sua idade, seu cargo ou sua geração. Cada pessoa deve entrar na conversa pelo que consegue perceber, conectar, perguntar, desafiar e construir.

Essa mudança é sutil, mas decisiva. Quando a organização rotula pessoas por idade, ela empobrece a conversa. Quando organiza a colaboração por competências, repertórios e problemas relevantes, ela amplia sua inteligência coletiva.

A OCDE tem chamado atenção para o potencial das forças de trabalho com maior diversidade etária, desde que acompanhadas por práticas consistentes de recrutamento, retenção, aprendizagem contínua, flexibilidade e redesenho do trabalho. O ponto central não é acomodar pessoas em categorias fixas, mas permitir que diferentes momentos da vida profissional encontrem formas produtivas de contribuição.

Uma agenda estratégica

Longevidade interessa a conselhos, CEOs e lideranças responsáveis por ser um tema que permite desenhar organizações mais inteligentes do capital humano e inovação, na gestão de riscos e cultura e em vantagem competitiva. Trata-se de uma agenda estratégica, já que o futuro do trabalho não será definido apenas pela velocidade da tecnologia, mas pela qualidade da colaboração humana em torno dela.

Esse tema também toca em processos de sucessão. Muitas organizações tratam sucessão como substituição de nomes. Essa visão é estreita. Sucessão bem conduzida também envolve transferência de critérios, construção de autonomia, circulação de confiança, exposição gradual a decisões difíceis e capacidade de separar presença de dependência.

Quando uma empresa perde alguém experiente sem ter convertido parte de seu repertório em linguagem comum, ela não perde apenas uma pessoa. Perde atalhos cognitivos, memória de riscos, relações de confiança, leitura política, sensibilidade comercial e compreensão das consequências invisíveis de certas escolhas.

Por outro lado, quando a permanência bloqueia a circulação de responsabilidade, a organização também perde. A colaboração rica não se constrói com retenção indefinida de poder, mas com transições bem desenhadas. Contribuir por mais tempo não significa ocupar o mesmo lugar por mais tempo. Pode significar aconselhar, mentorar, ensinar, provocar, conectar, revisar premissas ou apoiar decisões críticas.

Para conselhos de administração, o tema merece entrar na agenda estratégica. Não como política periférica de recursos humanos, mas como parte da discussão sobre capital humano, inovação, sucessão, cultura, risco e vantagem competitiva.

Algumas perguntas podem ajudar. Que conhecimentos críticos da empresa ainda dependem demais de poucas pessoas? Que experiências importantes nunca foram transformadas em método? Que profissionais poderiam contribuir de outras formas, se os papéis fossem menos rígidos? Que talentos em crescimento poderiam aprender mais depressa se tivessem acesso a conversas melhores?

A riqueza da colaboração aparece quando a empresa deixa de tratar experiência como arquivo e juventude como novidade. O que importa é a qualidade do encontro. Um bom encontro entre repertórios diferentes aumenta a capacidade de perceber sinais fracos, interpretar ambiguidades, corrigir excessos e decidir com mais responsabilidade.

Empresas mais inteligentes não serão aquelas que apenas automatizam mais. Serão aquelas que combinam tecnologia, experiência, aprendizagem, confiança e diversidade de perspectivas para tomar decisões melhores.

A longevidade profissional, quando bem compreendida, não é uma pauta sobre idade. É uma pauta sobre colaboração. É sobre como preservar o que foi aprendido, abrir espaço para o que está emergindo e construir organizações capazes de aprender com mais profundidade do que a velocidade do mercado costuma permitir.

Esse talvez seja o verdadeiro tema por trás da reportagem da Forbes. Não apenas o crescimento de profissionais com mais idade no mercado, mas a necessidade de rever a arquitetura da contribuição humana nas organizações.

 

Ronaldo Ramos é fundador do CEOlab, conselheiro e mentor de CEOs, acionistas, executivos C Level e famílias empresárias. Sua atuação combina experiência executiva, prática de conselho, governança, estratégia, desenvolvimento de lideranças e apoio a decisões críticas em ambientes de crescimento, sucessão, transformação e complexidade. Saiba mais!

Maria Jose Tonelli: Professora titular na FGV EAESP/Colunista do Valor Econômico/ Palestrante/Desenvolvimento de Lideranças/ Conselho Consultivo. LinkedIn.

Posts Relacionados

Fale Conosco!

Por gentileza, preencha as informações abaixo. Após clicar no botão “Enviar” direcionaremos para o WhatsApp.

ENTRE EM CONTATO

Saiba mais e esclareça suas dúvidas