CEO: O cargo que não cabe em uma função

CEO: O cargo que não cabe em uma função

Ronaldo D. B. Ramos
Maria José Tonelli

Nem todo grande CFO será um grande CEO. Nem todo grande COO estará pronto para ocupar a cadeira principal. A afirmação pode parecer dura à primeira leitura, mas talvez seja apenas uma forma honesta de separar excelência funcional de liderança integrada.

Cada executivo de primeiro nível domina uma parte vital da empresa. O CFO protege o caixa, organiza o capital, mede riscos, conversa com bancos, auditores, investidores e acionistas. O COO faz a empresa respirar todos os dias, transforma planos em rotina, remove obstáculos e garante que a promessa feita ao mercado se converta em entrega concreta.

Ambos são essenciais. Mas ser essencial não significa, automaticamente, estar pronto para suceder o CEO.

Essa distinção costuma ser subestimada em processos sucessórios. Em muitos casos, conselhos e acionistas procuram a sucessão onde a competência é mais visível, mais mensurável e mais confortável. A tentação é compreensível. Quem entrega resultado, conhece a empresa e transmite segurança parece, à primeira vista, o sucessor natural.

Mas o cargo de CEO não cabe dentro de uma função.

O CEO não é apenas o executivo que ocupa o ponto mais alto do organograma. Ele precisa ser o ponto de integração entre propósito, estratégia, cultura, capital, pessoas, mercado e tempo. Inspirada por Simon Sinek, a distinção entre olhar “para dentro” e olhar “para fora” ajuda a compreender essa diferença. CFOs e COOs tendem, por natureza de suas responsabilidades, a se concentrar com maior intensidade na proteção e na operação do sistema atual. O CEO precisa preservar o presente e, ao mesmo tempo, preparar a organização para um futuro que ainda não está inteiramente desenhado.

A questão, portanto, não é de hierarquia de valor. É de natureza do trabalho.

O CFO costuma ser formado pela disciplina da consequência. Aprende a desconfiar do entusiasmo fácil, a perguntar quanto custa, de onde vem o dinheiro, qual é o risco e o que acontece se a realidade não confirmar o plano. Quando é bom, impede que a empresa confunda ambição com fantasia.

O COO costuma ser formado pela disciplina da execução. Conhece a operação por dentro, enxerga gargalos, organiza processos, acompanha indicadores, cobra prazos e faz a máquina funcionar. Quando é bom, impede que a estratégia vire apenas um discurso elegante.

O CEO vive em outro território. Precisa decidir quando proteger e quando romper, quando insistir e quando abandonar, quando ouvir os números e quando perceber que os números ainda não captaram uma mudança em curso. Precisa conciliar objetivos legítimos, por vezes divergentes, entre acionistas, clientes, colaboradores, fornecedores, sociedade, reguladores e comunidade.

Seu trabalho se dá no campo dos paradoxos. Manter estabilidade e provocar mudança. Defender resultados de curto prazo e preservar a relevância de longo prazo. Sustentar a rotina e abrir espaço para a inovação. Ouvir o conselho e desenvolver o time. Proteger a cultura e corrigir seus vícios. Criar direção comum sem eliminar a diversidade de vozes que torna a empresa mais inteligente.

Essas diferenças não diminuem CFOs e COOs. Ao contrário, valorizam a sofisticação de seus papéis. O risco aparece quando o conselho transforma excelência funcional em critério automático de sucessão, sem avaliar se o executivo desenvolveu amplitude suficiente para liderar o todo.

Um CFO pode conhecer profundamente a empresa e ainda assim não ter exercitado a musculatura dos dilemas que o CEO precisa enfrentar. Pode proteger valor com rigor, mas hesitar diante de oportunidades que exigem imaginação, narrativa e coragem antes de evidências plenamente confortáveis.

Um COO pode fazer a empresa funcionar com rara competência e ainda assim não estar preparado para questionar o próprio modelo operacional. Pode dominar a engrenagem atual, mas ter dificuldade para desenhar uma nova máquina quando o mercado muda.

A pergunta sucessória, portanto, não deveria ser apenas: quem conhece melhor a empresa? Essa pergunta importa, mas não basta. A questão mais difícil é outra: quem consegue conduzir a empresa para um futuro que ainda não está completamente definido?

Ram Charan, Stephen Drotter e James Noel, ao tratarem do pipeline de liderança, mostram que cada passagem de carreira exige mudança real de competências, valores e uso do tempo. A promoção não é apenas um degrau a mais na hierarquia. É uma troca na natureza da contribuição esperada.

No caso do CEO, essa troca é profunda. O executivo deixa de representar uma função e passa a representar a empresa inteira. Deixa de defender uma agenda específica e assume a responsabilidade de integrar agendas que frequentemente entram em conflito. A transição é delicada porque mexe com identidade.

O CFO reconhecido pela prudência precisa aprender a negociar crescimento, risco, competição, colaboração, inovação e horizonte de tempo. O COO admirado pela entrega precisa aprender a sustentar ambiguidade, diálogo externo, reputação e escolhas estratégicas sem resposta imediata.

Nas empresas familiares, esse desafio ganha espessura emocional. O fundador muitas vezes reuniu visão, risco, coragem comercial, autoridade simbólica e conhecimento do negócio em um único corpo. Quando chega a sucessão, não basta escolher quem administra melhor uma parte da empresa. É preciso preparar quem será capaz de carregar o sentido do todo.

Noam Wasserman, ao estudar os dilemas do fundador, mostra como crescimento, controle, sucessão e atração de talentos costumam entrar em tensão quando a empresa amadurece. A organização que nasceu da energia de uma pessoa precisa, em algum momento, construir capacidades que ultrapassem essa pessoa.

Essa passagem exige maturidade. Exige que a empresa deixe de depender apenas da força individual do fundador e aprenda a criar instituições, rituais, processos decisórios, lideranças complementares e mecanismos de governança capazes de preservar o que importa sem bloquear o que precisa mudar.

O conselho tem papel decisivo nessa travessia. Sua responsabilidade não é coroar o executivo mais forte do momento, premiar lealdade ou escolher quem oferece maior conforto imediato. Sua responsabilidade é proteger o futuro da organização.

Esse cuidado exige observar sinais que nem sempre aparecem nos relatórios. Como o candidato conversa com pessoas fora de sua área? Como reage quando não controla todas as variáveis? Como escuta opiniões divergentes? Como lida com reputação, cultura, inovação, clientes, sucessão e capital humano?

A McKinsey, por meio dos estudos reunidos em CEO Excellence, destaca que CEOs de alta performance atuam simultaneamente sobre estratégia, organização, equipe, conselho, stakeholders e autoconsciência. O CEO precisa operar no cruzamento entre o que a empresa é, o que o mercado exige e o que o futuro ainda não revelou.

Além de autoconsciência, o CEO precisa construir confiança. Precisa engajar a equipe em um projeto coletivo no qual o todo seja maior que a soma das partes. Precisa ouvir o conselho sem se tornar passivo, desenvolver o time sem abdicar de responsabilidade e ajustar mudanças sem destruir a estabilidade necessária ao cotidiano.

Por isso, sucessão não deveria ser tratada como fotografia. Sucessão é filme. Não se avalia apenas o desempenho acumulado, mas a capacidade de aprender, ampliar repertório, mudar de perspectiva e liderar sob incerteza.

Um CFO pode se tornar excelente CEO. Um COO também. A origem funcional não condena ninguém. O ponto central é verificar se o candidato transcendeu sua função sem perder sua força original.

O melhor CFO candidato a CEO não abandona a disciplina financeira. Ele a coloca a serviço de uma visão mais ampla. Aprende a olhar clientes, tecnologia, cultura, reputação, crescimento e pessoas com a mesma seriedade com que sempre olhou o caixa.

O melhor COO candidato a CEO não abandona a execução. Ele a conecta a escolhas estratégicas mais profundas. Aprende que eficiência só cria valor duradouro quando serve a um modelo de negócio vivo, adaptável e legitimado pelo mercado.

Para o conselho, a implicação prática é clara. O desenvolvimento sucessório precisa começar antes da urgência. Não basta identificar nomes. É preciso criar experiências. Não basta avaliar resultados. É preciso testar amplitude.

O CFO deveria ser exposto a temas de cliente, inovação, cultura, crescimento e transformação digital. O COO deveria participar de decisões de capital, reputação, estratégia, sucessão e relação com acionistas. Ambos deveriam ser observados em situações nas quais sua competência original ajuda, mas não resolve tudo.

Michael Watkins, ao estudar transições executivas, lembra que mudanças de papel exigem aceleração de aprendizagem, leitura política e adaptação ao novo contexto. No caso do CEO, essa adaptação é mais exigente porque o centro da responsabilidade muda. A pergunta deixa de ser “como minha área vence?” e passa a ser “como a empresa permanece relevante?”.

A mentoria executiva pode ser especialmente útil nesse percurso. Não como receita pronta, nem como camada de verniz para o exercício da liderança. Seu valor está em ampliar consciência, repertório e qualidade das perguntas. Ajuda o executivo a perceber os filtros que trouxe de sua função de origem e os pontos cegos que podem limitar sua passagem ao comando maior.

Talvez a pergunta mais honesta para um candidato a CEO seja simples: quero ocupar o topo ou estou preparado para servir ao todo?

O topo seduz. O todo pesa.

O topo traz autoridade, visibilidade e status. O todo exige julgamento, escuta, renúncia e coragem para decidir entre perdas diferentes. O CEO raramente escolhe entre o certo e o errado. Muitas vezes escolhe entre caminhos incompletos, verdades parciais e consequências que só ficarão claras depois.

Essa é uma das razões pelas quais o cargo se tornou menos glamouroso e mais exigente. Em um mundo de mercados instáveis, tecnologias aceleradas, cadeias vulneráveis, reputações frágeis e expectativas sociais crescentes, o CEO não pode ser apenas o melhor especialista em uma parte da empresa. Precisa ser o principal integrador de sua complexidade.

A sucessão de CEO é uma das provas mais profundas de maturidade institucional. Ela revela se a empresa sabe distinguir competência funcional de liderança integrada. Revela se o conselho escolhe conforto ou futuro. Revela se a organização desenvolveu pessoas para preservar o que importa e transformar o que precisa mudar.

Um CEO não é o CFO promovido, nem o COO elevado, nem o executivo mais antigo, nem o nome mais seguro da mesa. Um CEO é o integrador maior de uma obra coletiva.

Quando essa diferença é compreendida, a sucessão deixa de ser aposta e passa a ser construção. A empresa aprende que liderar o todo exige mais do que dominar uma parte. Exige visão, presença, coragem e a rara capacidade de transformar muitas vozes em uma direção comum.

Por isso, conselhos não deveriam perguntar apenas quem parece mais pronto. Deveriam perguntar quem está mais preparado para continuar aprendendo.

Referências conceituais utilizadas

  • Carolyn Dewar, Scott Keller e Vikram Malhotra, autores de CEO Excellence, pela visão do CEO como integrador de estratégia, organização, equipe, conselho, stakeholders e autoconsciência.
  • Herminia Ibarra, autora de Act Like a Leader, Think Like a Leader, pela ideia de que a liderança se desenvolve também pela ampliação de experiências, redes e identidade profissional.
  • Michael D. Watkins, autor de The First 90 Days, pela contribuição sobre transições executivas, aceleração de aprendizagem e adaptação a novos contextos.
  • Miguel Pina e Cunha, autor de Paradoxes of Management and Organization, por suas reflexões sobre dilemas e paradoxos inevitáveis no exercício da liderança.
  • Noam Wasserman, autor de The Founder’s Dilemmas, pela análise das tensões entre controle, crescimento, sucessão e profissionalização.
  • Ram Charan, Stephen Drotter e James Noel, autores de The Leadership Pipeline, pela ideia de que cada passagem de liderança exige novas competências, novos valores e nova forma de usar o tempo.
  • Simon Sinek, autor de The Infinite Game, pela inspiração sobre continuidade, sucessão e complementaridade entre papéis de liderança em organizações que desejam permanecer relevantes no longo prazo.

 

Ronaldo Ramos é fundador do CEOlab, conselheiro e mentor de CEOs, acionistas, executivos C Level e famílias empresárias. Sua atuação combina experiência executiva, prática de conselho, governança, estratégia, desenvolvimento de lideranças e apoio a decisões críticas em ambientes de crescimento, sucessão, transformação e complexidade. Saiba mais!

Maria Jose Tonelli: Professora titular na FGV EAESP/Colunista do Valor Econômico/ Palestrante/Desenvolvimento de Lideranças/ Conselho Consultivo. LinkedIn.

 

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