Ronaldo Ramos
Durante a Copa do Mundo de 2026, o jogo Brasil 2 x 1 Japão revelou um fenômeno pouco visível para o público, mas muito relevante para quem pensa infraestrutura, risco operacional e coordenação sistêmica.
Enquanto a atenção nacional estava voltada ao placar, o Operador Nacional do Sistema Elétrico acompanhava outro movimento: a variação da carga no Sistema Interligado Nacional. Segundo o painel do ONS sobre a operação da Copa, os jogos da seleção brasileira alteram de forma significativa o comportamento da carga, pois concentram milhões de pessoas diante da televisão e reduzem atividades habituais no mesmo intervalo de tempo.
No jogo contra o Japão, essa mudança coletiva apareceu de forma expressiva. A carga caiu até 66.515 MW, com redução máxima de 21% frente ao perfil esperado para o período. No intervalo, houve recuperação de 2.659 MW em apenas nove minutos. Depois do apito final, a demanda subiu aproximadamente 12.784 MW em uma hora.
O episódio é interessante porque mostra que um sistema elétrico moderno não é desafiado apenas por usinas, linhas de transmissão, clima ou tecnologia. Ele também responde ao comportamento humano agregado. Quando milhões de pessoas param, levantam, cozinham, ligam equipamentos ou retomam rotinas ao mesmo tempo, essa sincronização social se transforma em curva de potência.
Também houve um componente adicional de complexidade. A partida ocorreu em horário de elevada geração solar distribuída, combinada com forte queda de consumo, o que levou o ONS a restringir cerca de 20 GW de geração renovável para preservar a estabilidade do sistema. O dado ilustra como a transição energética aumenta a importância de previsibilidade, flexibilidade operacional e coordenação em tempo real.
Para conselhos de administração, o caso oferece uma boa metáfora de governança. Sistemas complexos exigem preparação antes do evento, leitura rápida durante a ocorrência e capacidade de resposta coordenada quando o comportamento do ambiente muda. O risco não está apenas no ativo físico. Está também na simultaneidade das decisões humanas.
A lição é simples e poderosa. Em uma sociedade cada vez mais conectada, eventos culturais, hábitos coletivos e infraestrutura crítica passam a se influenciar de forma direta. O jogo aconteceu no estádio, mas parte relevante da operação ocorreu nos centros de controle. Durante 90 minutos, emoções nacionais foram traduzidas em megawatts.
Fontes consultadas: ONS, MegaWhat, InfoMoney, Eixos e Canal Solar.
Ronaldo Ramos é fundador do CEOlab, conselheiro e mentor de CEOs, acionistas, executivos C Level e famílias empresárias. Sua atuação combina experiência executiva, prática de conselho, governança, estratégia, desenvolvimento de lideranças e apoio a decisões críticas em ambientes de crescimento, sucessão, transformação e complexidade. Saiba mais!





