As novas gerações são uma nova espécie?

As novas Gerações são uma nova espécie?

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Gary Bolles, a transformação das carreiras e o desafio das organizações

Ao observar os jovens que chegam ao mercado de trabalho, Gary A. Bolles, especialista em futuro do trabalho da Singularity University e autor de As próximas regras do trabalho, recorre a uma provocação: talvez estejamos diante de uma “nova espécie” de ser humano. A expressão é uma metáfora, usada para destacar a distância entre as experiências de quem cresceu conectado e as referências das gerações anteriores.

Em entrevista publicada pela Forbes Brasil em 29 de outubro de 2026, Bolles associa essa diferença ao acesso instantâneo à informação e à ampliação das escolhas profissionais. O argumento merece atenção porque questiona premissas que ainda orientam a gestão de pessoas, os planos de carreira e o exercício da autoridade nas empresas.

Um mundo com mais caminhos possíveis

A primeira mudança está na experiência cotidiana. Jovens que cresceram com dispositivos digitais conhecem acontecimentos e oportunidades em tempo real. Esse contato permanente amplia o universo de comparação e influencia as expectativas sobre aprendizado, trabalho e qualidade de vida. Bolles chama de “opcionalidade” a capacidade de reconhecer e explorar alternativas antes pouco visíveis.

A consequência aparece nas trajetórias profissionais. O modelo de progressão previsível, associado à escada corporativa, perde espaço para um mapa de caminhos. Um profissional pode combinar emprego formal, projetos independentes, iniciativas empreendedoras e novas formas de qualificação. A diversidade de experiências torna-se uma resposta possível à incerteza, embora a liberdade efetiva de escolha varie conforme as condições de cada pessoa.

Autoridade, permanência e confiança

Bolles observa que as gerações anteriores frequentemente suportavam lideranças autoritárias e ambientes difíceis em troca de estabilidade e ascensão. Os mais jovens, quando dispõem de alternativas, tendem a rever essa troca com maior facilidade. A permanência na organização passa a depender da qualidade das relações, das oportunidades de aprendizado e da confiança na liderança.

A reflexão não elimina a necessidade de disciplina, responsabilidade ou resultados. Ela sugere, porém, que a hierarquia isoladamente oferece uma base cada vez mais frágil para conquistar adesão. Para as empresas, essa hipótese convida a examinar a experiência concreta dos profissionais, em lugar de atribuir as dificuldades de retenção apenas a diferenças de idade.

Competência, formação e propósito

A trajetória pessoal de Bolles reforça seu interesse por caminhos alternativos de formação. Ele se identifica com o grupo STAR, sigla de Skilled Through Alternative Routes, expressão que reconhece competências desenvolvidas por experiências e percursos diferentes da educação universitária convencional. A ideia é avaliar melhor aquilo que uma pessoa sabe realizar, sem reduzir seu potencial às credenciais acadêmicas.

Seu conselho aos jovens também evita transformar a busca por propósito em uma obrigação abstrata. Bolles propõe identificar um problema que desperte interesse verdadeiro e desenvolver capacidade para resolvê-lo. O significado do trabalho pode surgir da contribuição oferecida, da aprendizagem acumulada e do reconhecimento conquistado ao longo do percurso.

O que cabe aos líderes e conselhos considerar

As implicações para a gestão são relevantes. Planos de carreira excessivamente rígidos podem deixar de contemplar a diversidade de interesses e competências. Processos seletivos centrados em diplomas e experiências padronizadas podem restringir o acesso a talentos. Culturas que confundem lealdade com permanência prolongada correm o risco de interpretar equivocadamente novas formas de vínculo profissional.

Há, contudo, limites importantes nessa leitura. Não existe evidência de que uma geração inteira compartilhe o mesmo comportamento. Renda, escolaridade, contexto familiar e oportunidades de trabalho influenciam intensamente a capacidade de escolher. A metáfora de Bolles ilumina mudanças reais, mas não deve servir para transformar diferenças individuais em estereótipos geracionais.

A discussão assume contornos particulares nas empresas familiares, onde continuidade, confiança, legado e sucessão têm grande importância. O desafio consiste em preservar essas qualidades enquanto se ampliam os caminhos de desenvolvimento, a autonomia responsável e o reconhecimento do mérito.

Três perguntas para a agenda de governança

  1. Os mecanismos de liderança e reconhecimento da organização acompanham a evolução das expectativas profissionais?
  2. A empresa consegue identificar competências demonstradas por trajetórias pouco convencionais?
  3. Que razões concretas levam profissionais com boas alternativas a escolher permanecer e contribuir?

A contribuição mais fértil de Bolles está no convite a examinar se as instituições evoluem com velocidade suficiente para continuar relevantes. Talvez a pergunta central seja menos sobre como enquadrar os jovens nas estruturas existentes e mais sobre quais estruturas merecem ser revistas diante de um ambiente de trabalho em transformação.

Fontes e nota editorial

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